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Mostrando postagens de 2008
[22 de dezembro de 2008]

Estou quase arrancando os calendários desse ano que está a ir embora. Espero não precisar pensar em datas por muito tempo. Sinto-me longe da vida, então rodopio-pio. Faz calor e eu só quero saber do vento debaixo da minha saia. O sopro no meu rosto. A liberdade nos meus braços.

Você é tão frágil, vai quebrando-se desde o dia em que te peguei pela primeira vez. Tão frágil e não sei te remontar. Vivo então na condição de perder um pedaço de ti a cada dia. Começou logo depois que nasci.
[30 de agosto de 2008]

Por motivos excusos prometeu que nunca mais diria seu nome. Foi um choque para ele, uma decisão tão repentina. Mesmo assim saiu sem buscar uma explicação lógica para a moça que lhe observava atentamente. Aquele olhar cheio de ira não enganava: ela transbordava de ciúme.

Andando calmamente, procurava uma razão para tal promessa. Não conseguia encontrar em sua mente sequer um instante no qual não a amasse. Era um completo apaixonado, vivia por ela. E agora isso. O pior é que não sentia dor, via a situação com certo bom humor até. "Deve ser uma brincadeira", pensava consigo.

Passados dois dias, tentou ligar-lhe. Ninguém atendia. Depois de um dia inteiro nisso, idéias confusas passavam pela sua cabeça. Talvez ela tivesse sumido. Ou pior, alguém a tivesse sequestrado! Era simplesmente impossível ela não lhe atender, já que não havua nenhum motivo para que a mágoa se prolongasse por tanto tempo.

Continuou telefonando por uma semana, no entanto, com o passar dos …

Questionamento de Natal

[21 de dezembro de 2008]

Por mais que eu me coloque longe do Natal e das coisas que quase todos fazem no Natal, eis que encafifaram a mente com uma pergunta perturbadora: quanto tempo dura um pão de mel? Claro que não há pão de mel só durante o Natal, só que essa época do ano é mais pão de mel do que todo o resto.

Pão que mais parece bolacha, tão doce e coberto de chocolate, algumas vezes enfeitado e embalado, isolado no mundo. O pão de mel, açúcar, leite, trigo, cravo e canela - ah Gabriela. E quanto tempo será que dura o mel do pão?

Não adianta nada enfeitar o pão de mel. Rechea-lo com sorvete ou doce de leite. Há tanto pão de mel e mel de pão nesse mundo, não faz diferença como ele aparenta. Todos são, em essencia, a mesma coisa. Muda apenas a mão doce que os faz, que junta o pão e o mel.

Mas afinal, quanto tempo dura um pão de mel? Por quanto tempo fica perfumando a cozinha, enfeitando a mesa, espalhando doçura por onde passa? Acho que comigo ele não dura nada - principalmente se f…

Eu e Capitu

Já faz um tempo que venho pensado sobre registrar aqui algumas das coisas que assisto e leio - aliás, mais leio do que assisto. No entanto começarei falando da minissérie global "Capitu", que foi exibida de 09 a 13 de dezembro de 2008. Ainda vivo uma batalha interna para saber se gostei ou desgostei. De qualquer forma sinto que tal série deixou uma marca em mim, algo que não sei explicar bem em palavras.

Para quem não sabe "Capitu" é uma adaptação do livro "Dom Casmurro", de Machado de Assis. 2008 foi o ano do centenário da morte do escritor e, portanto, várias homenagens foram realizadas, incluindo tal produção da Rede Globo. Caso tenha interesse em ver a minissérie, basca visitar seu site oficial e assistir aos vídeos.

Machado de Assis é apaixonante, ao menos para mim. "Dom Casmurro" foi a primeira obra dele que eu li e estava muito interessada em saber como seria conduzida a série. Logo de cara tive um misto de suspresa e estranhamento, uma vez…

Animal, Animal

[08 de dezembro de 2008]

Cachorro encostado
Portão de metal
Sombra na carne
Calor infernal

Cavalo atravessa
Comer capim
Carros parram
Vida sem fim

Coelho cercado
Longe da terra
Busca o solo
Remove a pedra

Gato sem fome
Caça um rato
Morde e solta
Brinca no prato

Pássaro pousa
Cisca e pia
Minhoca no bico
Barriga vazia

[04 de dezembro de 2008]

Estou há muito tempo pensando em quem sou exatamente. Aos meus 22 anos mal posso dizer o que estou fazendo ao certo. Sinto-me tão jovem e tão velha ao mesmo tempo. Não sei o que eu gostaria de ser, como eu gostaria de agir. Nunca escolhi estar onde estou, sejam as coisas boas ou as coisas ruins. Sinto-me perdida no meu próprio espaço, mal consigo me colocar no lugar que me pertence: dentro de mim.

Sou-me profundamente, tanto que quase vou explodir. Comparo-me aos meus amigos jovens e não sou como eles, estou tão longe disso. Estão todos tão tranquilos e seguros de suas vidas - ou ao mens transparecem isso. Vivem um dia após o outro como se milhares de preocupações nunca chegassem até suas mentes. Sempre acreditei que aos 22 anos eu não seria metade de quem sou. Sinto-me tão velha, mas olho de novo minha idade e me assusto.

Doí muito pensar na existência. Agora mesmo enfrento uma dor de cabeça que se multiplicaria se eu simplesmente me negasse a escrever. Minhas…
[19 de novembro de 2008]

As lotéricas dos shoppings são as mais movimentadas. Abrem às 10h e só fecham às 21h, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Ela entrava às 15h e ficava até o término do expediente das máquinas. Às 18h tinha cerca de meia-hora para tomar um cafezinho, muitas vezes requentado e fraco.

Recebia pagamentos de contas e fazia jogos de muitos esperançosos que ainda acreditavam na mínimíssima probalididade de ganhar na Mega Sena. Em dias mais movimentados chegava a atender cerca de quatrocentas pessoas. Seu trabalho era mecânico e exigiar muita atenção.

Continuava a receber contas normalmente. Pilhas e mais pilhas delas. Foi então que um cliente ofereceu-lhe uma bala. Tinha no rosto um sorisso e um ar de gratidão por ter sido tão bem atendido. A moça não sabia direito o que fazer, era a primeira vez que isso lhe acontecia. Mas a fila não parava e logo um casal aproximou-se do caixa. Quase sem perceber ela os atendeu muito bem, cheia de alegria e simpatia, bem difer…
[19 de novembro de 2008]

O cheiro de grama recém cortada adentrou a casa. Foi deitar-se já no início da madrugada. O que mais seu corpo ansiava era esticar-se por entre as cobertas e entregar-se ao universo da preguiça. Nesse estado latente, quase vegetativo, separou o corpo da mente e voltou a pensar no quanto adorava ver a grama aparada.

Era primavera e tudo crescia muito rápido. Chuva e sol, sol e chuva. As plantinhas agradecem mas ela, em termos, não. Ah, o gramado baixo de dias atrás, como era lindo e único, quase uma obra de arte. Nem ao menos quinze dias passaram-se e lá estava ela novamente: a vontade de cortar a grama. Os dias transcorriam como o verde que aumentava a sua volta. A vontade louca de cortar a grama crescia como o mato em flor, bem primaveril.

Contratou um jardineiro para cortar-lhe o gramado. Tudo em vão. Encontrou-se, então, com um problema pertinente. Por algum motivo desconhecido seu desejo de cortar a grama não havia passado. Por um instante acreditou que bast…

Minha Mãe

[30 de outubro de 2008]

Chícaras de café espalhadas pela casa. Insistir tanto em uma coisa até conseguir. Sempre mudar a disposição dos móveis nos cômodos da casa. Pão com queijo derretido. Editar fotos no computador. Preocupar-se de antemão. Sonhar com uma coleção de sapatos. Sempre comentar o quanto acha bonito certos modelos de carro. Dormir na sala para mudar de ares. Comprar mais coisas do que o planejado, mesmo que não sejam exatamente necessárias. Certo receio de se expor demais. Acreditar na sinceridade de algumas pessoas insinceras. Suportas situações difíceis até o último instante.

Cinéfila. Presente. Aparelhos de ginástica pela casa. Coisas de última hora muito bem feitas. Cafeteira. Não comer fora de casa. Jovem. Caseira. Ouvir todo tipo de música. Aguentar birras de filha. Pedir para coçar as costas. Ter o próprio computador. Aprender facilmente. Abrir as embalagens de ponta cabeça. Chocólatra. Olhos verdes. Pilhas de CDs gravados. Habilidades manuais. Roupas na cadeira. En…
[01 de fevereiro de 2008]

Ela vivia de trocar lâmpadas. Dia após dia ganhava o pão e a alegria com isso. Às vezes passava diversas horas rosqueando uma lâmpada no bocal, outras o fazia instantâneamente.

As lâmpadas eram dos mais variados tipos e intensidades. Claras, brancas, laminadas, frias, quentes, amarelas, azuis, verdes ou vermelhas. Pequenas ou grandes, isso não importava. Sua função era rosqueá-las.

Mas então surgia um problema: cada lâmpada tinha um bocal diferente. Isso dava muito trabalho para a menina. Com as lâmpadas mais comuns, as que já havia instalado diversas vezes, era fácil. O empecilho era com as lâmpadas novas.

Era então que passava vários dias em busca do bocal para aquela lâmpada. Afinal, se existia, algum lugar haveria de iluminar. Pedia ajuda, pesquisava em livros, recolhia opiniões. Até que um dia encontrava, demorasse o quanto demorasse.

Nunca jogava lâmpadas fora, mesmo quando não encontrava onde instalá-las. E num dia qualquer, quando não tinha nada mais por f…

Romeu e Julieta - música tema

Decidi fazer uma coisa feliz hoje para esse blog. Postar uma gravaçãozinha de mim tocando uma musiquinha qualquer. Então aí vai O tema de Romeu e Julieta (do primeiro filme). Não ficou perfeita mas estou quase lá.

P.S.: E acabei de gravar Canon in D, ficou mais ou menos até =D
[23 de setembro de 2008]

Por vezes me pego compenetrada em mim mesma enquanto faço algo que não necessite de meus pensamentos. Ao mesmo tempo que busco esvaziar-me, tateio o mundo de olhos fechados, como se sempre faltasse algo. Ao passo que tudo parece tranquilo, desejo então questões para ocupar-me.

Se paro, não é por querer. Estacionar-me, estatelar-me no caminho não é algo que me caiba, mas no fundo é minha obrigação. Pago a dívida de tanto ter corrido num instante para então descansar.

O descanso me irrita, esse é o problema. Um estado de pura preguila, viver a preguiça, respirar ópio e se deixar ficar tonto. O dia todo plantado no nada.

Eis-me agora com o problema. Irrita-me a demasiada ocupação da mente, tanto que, em casos extremos, ela corre o risco de desligar-se sozinha. Vivo uma tranquilidade interna por alguns instantes para então o turbilhão de pensamentos me afogar.

Sempre me pergunto como consigo me ser, fazer coisas que sequer imaginei ser capaz. Serei um acaso de mim mesm…

Mushi

[08 de setembro de 2008]

A água caia sobre sua cabeça e aliviava seu cansaço. Derrubava com toda a força o longo dia que tivera e ativava seus pensamentos. Questionava sua vida, tinha novas idéias, criava, sonhava. Tomava seu sagrado banho diário. Libertava suas angústias que escorriam como a água indo para o ralo, mesmo que limpa.

Ouviu um zumbido estranho vindo de longe. Aos poucos, mesmo que meio confuso, foi aproximando-se até chegar bem perto de sua orelha. Assustada, virou bruscamente a cabeça e jogou seus cabelos molhados para o lado do qual acreditava que vinha o inseto misterioso. O barulho então cessou.

Procurou por algum tempo por entre seus cabelos, ele só poderia estar lá. Não sabia do que se tratava, deveria ser algo nojento. Não tinha medo, apenas nojo. Logo no seu banho tão puro algo sujo vir atrapalhar seria imperdoável. No entanto, nada encontrou em seus cabelos, nem no chão ou muito menos no resto do banheiro.

Continuou a banhar-se um pouco desconfiada. Tinha a impressã…

Mormaço e Flores

[03 de setembro de 2008]

No início do mês de setembro era comum sentir o perfume das flores pelo ar quando se saía à noite. Tão comum que já nem notava mais tal detalhe enquanto caminhava de volta para casa. Nem o vento um pouco quente que deslizava em sua pele e mexia seus cabelos. Tornou-se incapaz de sentir muitas coisas com o passar dos anos, acreditou até mesmo que pedaço da sua humanidade havia sido jogado fora.

Sua mente estava completamente vazia, não prestava atenção em nada, apenas seguia seu caminho de volta sem um pensamento sequer. Até o instante em que, ao atravessar a rua, uma forte dor no peito o acometeu. Sozinho no meio de um lugar praticamente deserto, não podia fazer nada além de sentir.

Por mais que tentasse, não conseguia chamar a atenção de qualquer um dos poucos carros que passavam por ali. Iam todos correndo e provavelmente teriam receio de parar no meio da noite para um estranho acenando sofrivelmente, quase como um louco. Sentou-se então no degrau de uma loja…
[29 de agosto de 2008]

É completamente compreensível que você não note o quanto tudo isso esconde. Talvez seus olhos não estejam preparados para despejar todas as dúvidas que por ele perpassam. Num momento qualquer você será uma canção volupiosa e todo o seu corpo não será nada além de calafrios. E então será o dia mais lindo da sua existência. Explodirá.

Estou aqui te ouvindo atentamente, quase que de forma espetacular. Saio da minha mente para viajar por entre os poemas que ainda não me contou. Arranho sua pele bem de leve, quase que uma cócega. Sou inesperada mas quero te alcançar. Não foge de mim, sensação feita de orgulho, você todo é orgulho. Respira e corre, só não me deixa te abraçar. Faisca.

E quem mais pode ser tão encantador enquanto dorme? Muito além do mundo, me pergunto por onde passeia nessas horas intermináveis. Tem esse ar de quem acabou de nascer e o mundo não o conhece. Parece de mentira, um enfeite, uma brincadeira qualquer. E mesmo assim continua existindo.

Te apago d…
[19 de agosto de 2008]

Sei-me o suficiente. As coisas estão limpas e no lugar e não sinto sono, apenas certa preguiça que quase me leva para a cama. Em momentos assim tudo que eu gostaria de fazer era esvair-me, só que não consigo. Estou plena e grandiosa, a vitória tomou conta do meu ser. Já não tenho medo e é exatamente aí que reside o perigo.

Quero sentir falta de ar, ansiedade ou qualquer tipo de prostração. Um novo desafio, uma emoção mais forte para então desencadear o pensamento. Perder-me em cambalhotas, ser o globo da morte. Uma fantasia no lugar disso tudo que se vê.

Uma briga feia ou uma alegria intensa. Um encontro inesperado, uma nova amizade. Talvez o que eu busco - e bendito seja - já está dentro de mim antes mesmo de eu nascer. Busco o todo que me faz apaixonar dia após dia pelas voltas que minha mente dá em mim mesma. O prolongamento de minhas próprias diretrizes. Enfim, tudo o que sou capaz de fazer.

É exatamente essa vontade de escrever.

Luna

[04 de agosto de 2008]

Descobri que sei o que é amar alguém quando passo por uma situação diversamente qualquer. Um momento meio que longo, meio que breve, mas que mexa com o mundo de sentimentos que abrigo em meu ser. Ao menos eu não amo à primeira vista. Apaixono-me apenas, com bastante força, talvez quase que por completo. Porém amar é um passo além, um espaço impossível de se alcançar apenas com as pontas dos dedos.

Nunca gostei de cães. Sempre os achei bonitinhos quando filhotes e não tinha nada contra nenhum deles. Só que também não os amava. Até que um dia minha mãe me pediu um cachorro. Passei um tempo negando-a tal pedido até que, já sem muita saída, fiz-lhe uma surpresa: apareci com uma cadelinha, a qual demos o nome de Luna. A bolinha de pêlos era linda e amorosa, tão encantadora que foi impossível não gostar um pouquinho dela.

Certo dia minha mãe foi para a praia e eu fiquei em casa sozinha. Como somos muito ligadas, essa foi uma das primeiras vezes que nos separamos por tant…

Bolhas de Sabão

[29 de julho de 2008]

Bolhas de sabão são encatadoras. Sempre me perguntei até onde elas conseguiriam ir, mesmo sendo tão frágeis. Quanto maiores, mais frágeis e coloridas eram. Um colorido que ia mudando a medida que o tempo passava, a luz batia e o vento levava. Aos poucos tornavam-se mais finas, quase invisíveis, até sumirem sem estourar. Mas essas eram poucas. O mais comum era que elas estourassem antes mesmo de sair voando por aí, em suas efêmeras vidas de bolhas de sabão.

Gostava de ensaboar minhas mãos no banho e fazer bolhas enormes, mas que mal conseguiriam sair do lugar. Gastava horas nessa diversão infantil e gratificante. No entanto, o mais bonito mesmo era ver aquele monte de bolinhas no vento enfeitando o céu, subir numa banquetinha e passar as tardes soltando bolhas na frente de casa. Assoprar sempre tomando o cuidado para não engolir sabão, que não tinha gosto bom.

Não me lembro da maior bolha de sabão que já fiz na vida. Só sei que tais bolinhas combinam com o céu azul e…

Platonicidades

[17 de dezembro de 2006]

O amor despontava. Único e platônico como deveria ser, completo e inatingível. Era assim que ela o amava. Suave. Doce. Sem pedir nada além de amar.

Ela o olhava. Era como se houvesse ele em todos os lugares. Envolvia-lhe. Acariciava-lhe. Perdia-se nos sorrisos alheios. Corria no sangue. Mas mesmo assim longínquo. Inatingível.

Não havia temores. Ela nunca tentaria alcançá-lo. Talvez o trabalho não compensasse. Talvez fosse apenas admiração confusa. Talvez nem fosse nada.

Amar. Desejar sem querer, apenas desejar. Apenas querer bem. Não roubar, não matar nem perder a razão. Fazer em prosa o que couber à inspiração.

O sentimento secreto. Indescritível. Não doía nem fazia cócegas. Ela apenas tinha os olhos. A mente indo além. Os sonhos confundidos com realidade. Ninguém pode garantir o que é real.

Amor abstrato. Amor menos amor. Sentimento sem classe, sem vontade nem maldade. Ela o encontra, mas não sabe bem o que vê. Dorme e acorda com ele. Sonha. Quem sabe um dia, um b…
[04 de maio de 2008]

Espero que saiba que o amor é delicado e a brisa o vai levando enquanto andamos de mãos dadas. Nos acompanha. Pense comigo e perceba que essas coisas todas não são meras coincidências, porque no final estamos no começo de tudo.

Estamos sujeitos a viver nossas vidas. Que fosse então antes do fim, antes de tornar os fatos meras alucinações. Tolices humanas, não nos sabemos depois de despertos. Preferimos acreditar nos olhos do que no coração, viver o mais fácil do que o imprevisível.

E o amor foi assim tão nosso que tornou-se difícil de acreditar.
[02 de março de 2008]

Começou a se mover devagar, quase parando. Depois mais rápido, acelerou com força total. E foi. Tudo foi ficando cada vez mais pequeno, como se as ruas e casas fossem meros pedaços da imaginação. E assim as árvores e montanhas. Tudo ao alcance das mãos.

O mar parece parado, uma textura nebulosa, uma obra de arte infinita. As nuvens parecem sólidos algodões brancos, tenho certeza que posso caminhar nelas.

Na linha do horizonte infinito do céu, o azul e o alaranjado do amanhecer encontram-se e formam uma linha branca que vai muito além de tudo.

O sol é mais forte aqui, mais quente e mais vivo. O mundo cabe na palma da mão, mal viajei mais já me sinto viajada por completo. Não posso deixar de me emocionar.

As linhas dos rios, os relevos das montanhas, as ondas batendo na praia. Tudo parece congelado, uma pintura criada para que eu possa admirar. A sombra do pássaro voando acima das nuvens.

As turbinas, a cidade. As casas amontoadas, os caminhos confusos. Tudo mais próximo…
[08 de maio de 2007]

Desenterra de mim todo o desejo do mundo que escondi no peito apenas por medo de uma brisa mais forte. Quero livrar-me desse peso, sopro que asusta a alma. Em nada mais penso, em nada mais existo. Esqueço-me de lembrar e traio o pensamento fiel. Escrevo devagar mas gostaria que fosse rápido, tudo me sufoca. Ouço a mesma música por horas e tudo me sufoca.

Sinto um aperto no peito e a dor de existir é imensa. Sinto-me feliz, estranhamente feliz, como um pássaro voando em círculos para avisar que vai chover. Não sei pensar em mais nada além do fato de que vai chover. Continuo voando em círculos, feliz.

De repente, não mais que de repente, minha mão, papel e lápis fundiram-se. Doía escrever no início, como uma repulsa ao desejo. Suspiro, meu corpo vive a contradição de libertar-se sem deixar de se prender e o desejo continua pleno em meu coração. Achei que ia passar e aqui cabe uma confissão: não passou.

Não sei bem como devo estar. Minha letra mudou tantas vezes durante …
[15 de abril de 2008]

Calou-se subtamente. Percebeu que chegava a hora de trocar-se e sair. Deixou-se ficar jogada na cama por mais algum tempo, telefone em mãos. A pessoa do outro lado também não falava nada. Desligou.

O corpo todo amortecido, sensação de ter esquecido de si mesma. Sentia-se realizada, nada mais precisava acontecer. Fechou os olhos, respirou fundo e quando percebeu faltavam apenas dez minutos para o horário marcado. Conformou-se em chegar atrasada.

Levantou-se, pegou as chaves e saiu. Iria andando mesmo. Era uma tarde ensolarada. Em sua cabeça ainda ecoavam as últimas palavras ouvidas no telefone. Em seu corpo ainda restava o alívio do silêncio repentino. Não era capaz de conversar nem consigo mesma.

Horas antes sentia certa ansiedade, mas estava inundada de nervosismo. Esperava uma resposta, uma mera resposta que fosse. Não vinha. O telefone não tocava. Chegou a começar a ligar ela mesma, mas desistiu.

Continuou caminhando. Já devia estar há dez minutos assim. Quase que …
[27 de março de 2008]

Toda linha que separa é delicada. Toca-la talvez libere toda a energia que nela está contida. Inundará os corpos de prazeres e dúvidas, carregará a força que mal existia segundos antes. Se fará uma sombra, esconderá e apaziguará muitas existências.

Rompeu-se. A linha agora está na ponta dos dedos. Tudo que toca tilinta, estrala, vibra. Se modifica. Atravessa paredes e cria raízes. Nunca dorme mas sempre sonha.

Calada vai crescendo diariamente, alimentando-se da própria energia. Ninguém sabe quando vai morrer, mas sempre morre. Sempre se vai sem avisar. Ninguém sofre, porque é assim.

Linhas. Tão delicadamente resistentes. Quem não tem medo de atravessa-las? Romper consigo mesmo e simplesmente viver cada momento como o último. Criar tudo aquilo que tiver vontade. Colocar o próprio mundo ao alcance das mãos.

A tênue linha, tão luminosa, tão segura... Ninguém quer toca-la, é tão mais belo deixar como está. Depois da linha nada se sabe. Felicidades e tristezas aguardam.

E e…

Branco

[31 de março de 2008]

Nada. Começa assim. O branco espaço da branca mente sem idéias mas cheia de vontade. Com qual vontade conduz e rodopia diante dos meus olhos. Não o mesmo. Nunca mais o mesmo.

Parado, diante do espelho, contempla a figura imóvel de sua boca. O desenho, a descoberta notável de nunca ter se olhado com atenção. Horas no silêncio. Valiosas. E vai passando, infinitamente, apagando todos os detalhes de como foi.

Desperta. Abre os olhos sem esforço e dá o primeiro passo. Parece incrível mas se contem. Contempla. O coração bombeia e bombeia, nunca sabe quando parar. Se deixa cair como se num último ato de coragem.

Flutua. Seus cabelos dançam no vento, tarantela. Pássaros e o calor do sol, brilhante brindando tudo que se enxerga. Vagarosamente feha os olhos e nota que mais nada será.

Pára. Qualquer sensação macia abraça seu corpo. Sente cada um de seus ossos confortavelmente organizados. Um mar branco, um continente branco. Acolhedor e vazio. Nada de belo nem de horrível. Bran…

Amor Próprio

[01 de abril de 2008]

Fugidia e vulgar. Assim definiu-se a ansiedade por buscar mais e mais. Por nada esperava, nada mais queria. Olhava para todos os lados e nada enxergava. Caminhava, desejava. E morria, horas e horas morta, sem ação.

Inerte. Passam horas, dias, meses e anos. Assim fica parada, sem movimentar-se, quase um vegetal cheio de criatividade. E tudo tão difícil, tudo que poderia ter feito. E continua assim.

Eis que então quebra-se o ciclo. Onde foi mesmo que você tocou? O que foi mesmo que você alcançou? Sujeiras profundas, pervercidades, falta de amor. Falta tudo, menos medo. Medo sobra. Explode.

Suja, contamina, diminui. Ninguém. Solidão. Tortura. E medo. Todos os tipos de dor e culpa. Amor? Só mais uma palavra bonita cheia de vazio. Caiu.

Não toque nada, nem respire, nem coma. Deixe a vida esvair do seu ser lentamente. Corroa sua mente com tudo o que houver de pior. Vai assim, experimentando até o último fio de vida. E renasça para então tentar fazer algo de melhor.