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Mostrando postagens de Abril, 2008
[15 de abril de 2008]

Calou-se subtamente. Percebeu que chegava a hora de trocar-se e sair. Deixou-se ficar jogada na cama por mais algum tempo, telefone em mãos. A pessoa do outro lado também não falava nada. Desligou.

O corpo todo amortecido, sensação de ter esquecido de si mesma. Sentia-se realizada, nada mais precisava acontecer. Fechou os olhos, respirou fundo e quando percebeu faltavam apenas dez minutos para o horário marcado. Conformou-se em chegar atrasada.

Levantou-se, pegou as chaves e saiu. Iria andando mesmo. Era uma tarde ensolarada. Em sua cabeça ainda ecoavam as últimas palavras ouvidas no telefone. Em seu corpo ainda restava o alívio do silêncio repentino. Não era capaz de conversar nem consigo mesma.

Horas antes sentia certa ansiedade, mas estava inundada de nervosismo. Esperava uma resposta, uma mera resposta que fosse. Não vinha. O telefone não tocava. Chegou a começar a ligar ela mesma, mas desistiu.

Continuou caminhando. Já devia estar há dez minutos assim. Quase que …
[27 de março de 2008]

Toda linha que separa é delicada. Toca-la talvez libere toda a energia que nela está contida. Inundará os corpos de prazeres e dúvidas, carregará a força que mal existia segundos antes. Se fará uma sombra, esconderá e apaziguará muitas existências.

Rompeu-se. A linha agora está na ponta dos dedos. Tudo que toca tilinta, estrala, vibra. Se modifica. Atravessa paredes e cria raízes. Nunca dorme mas sempre sonha.

Calada vai crescendo diariamente, alimentando-se da própria energia. Ninguém sabe quando vai morrer, mas sempre morre. Sempre se vai sem avisar. Ninguém sofre, porque é assim.

Linhas. Tão delicadamente resistentes. Quem não tem medo de atravessa-las? Romper consigo mesmo e simplesmente viver cada momento como o último. Criar tudo aquilo que tiver vontade. Colocar o próprio mundo ao alcance das mãos.

A tênue linha, tão luminosa, tão segura... Ninguém quer toca-la, é tão mais belo deixar como está. Depois da linha nada se sabe. Felicidades e tristezas aguardam.

E e…

Branco

[31 de março de 2008]

Nada. Começa assim. O branco espaço da branca mente sem idéias mas cheia de vontade. Com qual vontade conduz e rodopia diante dos meus olhos. Não o mesmo. Nunca mais o mesmo.

Parado, diante do espelho, contempla a figura imóvel de sua boca. O desenho, a descoberta notável de nunca ter se olhado com atenção. Horas no silêncio. Valiosas. E vai passando, infinitamente, apagando todos os detalhes de como foi.

Desperta. Abre os olhos sem esforço e dá o primeiro passo. Parece incrível mas se contem. Contempla. O coração bombeia e bombeia, nunca sabe quando parar. Se deixa cair como se num último ato de coragem.

Flutua. Seus cabelos dançam no vento, tarantela. Pássaros e o calor do sol, brilhante brindando tudo que se enxerga. Vagarosamente feha os olhos e nota que mais nada será.

Pára. Qualquer sensação macia abraça seu corpo. Sente cada um de seus ossos confortavelmente organizados. Um mar branco, um continente branco. Acolhedor e vazio. Nada de belo nem de horrível. Bran…

Amor Próprio

[01 de abril de 2008]

Fugidia e vulgar. Assim definiu-se a ansiedade por buscar mais e mais. Por nada esperava, nada mais queria. Olhava para todos os lados e nada enxergava. Caminhava, desejava. E morria, horas e horas morta, sem ação.

Inerte. Passam horas, dias, meses e anos. Assim fica parada, sem movimentar-se, quase um vegetal cheio de criatividade. E tudo tão difícil, tudo que poderia ter feito. E continua assim.

Eis que então quebra-se o ciclo. Onde foi mesmo que você tocou? O que foi mesmo que você alcançou? Sujeiras profundas, pervercidades, falta de amor. Falta tudo, menos medo. Medo sobra. Explode.

Suja, contamina, diminui. Ninguém. Solidão. Tortura. E medo. Todos os tipos de dor e culpa. Amor? Só mais uma palavra bonita cheia de vazio. Caiu.

Não toque nada, nem respire, nem coma. Deixe a vida esvair do seu ser lentamente. Corroa sua mente com tudo o que houver de pior. Vai assim, experimentando até o último fio de vida. E renasça para então tentar fazer algo de melhor.