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Mormaço e Flores

[03 de setembro de 2008]

No início do mês de setembro era comum sentir o perfume das flores pelo ar quando se saía à noite. Tão comum que já nem notava mais tal detalhe enquanto caminhava de volta para casa. Nem o vento um pouco quente que deslizava em sua pele e mexia seus cabelos. Tornou-se incapaz de sentir muitas coisas com o passar dos anos, acreditou até mesmo que pedaço da sua humanidade havia sido jogado fora.

Sua mente estava completamente vazia, não prestava atenção em nada, apenas seguia seu caminho de volta sem um pensamento sequer. Até o instante em que, ao atravessar a rua, uma forte dor no peito o acometeu. Sozinho no meio de um lugar praticamente deserto, não podia fazer nada além de sentir.

Por mais que tentasse, não conseguia chamar a atenção de qualquer um dos poucos carros que passavam por ali. Iam todos correndo e provavelmente teriam receio de parar no meio da noite para um estranho acenando sofrivelmente, quase como um louco. Sentou-se então no degrau de uma loja fechada.

Ao tentar controlar a respiração acabou sentindo o cheiro forte de flores entrando direto em suas narinas. A dor latejante foi diminuindo vagarosamente. Tirou a blusa pesada que vestia e foi então que sentiu o ar fresco de início de primavera tocando seus braços. Uma sensação engraçada e nostálgica foi envolvendo-lhe docemente. Era como se estivesse aconchegado nos braços de sua mãe.

A dor no peito já não era tanta, aproveitava o prazer de estar vivo. Decidiu que se deixaria ficar ali até o amanhecer, mas no fundo queria poder congelar a noite para que nunca mais deixasse de perceber o vento ou o perfume das flores. Queria ainda sentir mais do que aquela rua tinha a lhe oferecer, porém no momento não conseguiria se manter de pé.

Já mais tranquilo, notou que seus olhos ficavam cada vez mais pesados e deixou-se levar pelo cansaço extremo. Era chegada a hora de ter um descanço de tudo o que tinha acabado de viver. Adormeceu com um sorriso no rosto e só foi tirado de lá quando a loja estava prestes a abrir as portas.

Comentários

Anônimo disse…
Oi, Mylle,

alguns textos são bonitos. O desta terça, especialmente. Um flash, um conto episódico.
Gosto de sua voz (narrativa) suave e inalterável, o que lembra a delicadeza de Banana.
Compartilhe estes escritos com os colegas no proximo encontro.
beijo mk