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Ai no Poltergeist

[14 de maio de 2009]

Uma grande lua cheia e dourada iluminava o céu no momento em que recebi aquele telefonema. Mal sabia o que responder quando o desconfortável silêncio obrigou a pessoa do outro lado da linha a desculpar-se profundamente por ter anunciado a notícia. Lembro-me que passei alguns longos minutos com o corpo vazio, tive a impressão de que a lua se aproximava dos meus olhos com certa velocidade até que me deixei cair no chão.


Nosso namoro durara pouco, muito pouco, mas sabíamos que o sentimento sempre esteve lá, escondido em algum lugar distante. Não houve tempo para os primeiros planos, nem para conhecer todos os membros da família. Vivemos apenas os primeiros passos de algo que viria a se transformar em amor, apenas as tímidas descobertas e a calor dos primeiros carinhos trocados. O desejo infantil de ter o outro ao lado para sempre, sempre...

Fomos namorados por dois meses e seis dias, exatamente. Já fiz e refiz tal conta tantas vezes que seria impossível errar numa hora dessas. Ele estava sozinho quando três ladrões entraram em sua casa e ele decidiu reagir. Morreu na hora e só foi encontrado pelos pais horas depois. Tínhamos 20 anos naquela época e tudo parecia perfeito, era como se soubessemos que viveriamos juntos por muitos anos. Muitos anos.

Era um lindo dia, o céu estava exuberantemente azul, sem nenhuma nuvem, e o vento balançava de leve os galhos das árvores. Era o dia do velório, mas por algum motivo que desconheço comecei a me apegar a beleza que se mostrava tão desavergonhadamente diante dos meus olhos. Naquele momento girava uma estranha confusão dentro de mim, como se alguém tivesse roubado um pedaço que mal existira. Por vezes eu até pensava que não tinha direito de sentir tristeza muito menos de estar ali, já que naquele instante eu era apenas uma namoradinha dele.

Com o passar dos dias comecei a acreditar que aquilo não passava de uma mentira, que ele me ligaria dizendo que estava bem e eu lhe responderia que o amo muito, que nunca amarei ninguém mais assim. Foi então que percebi que eu nunca havia dito coisa semelhante para ele e senti uma amarga culpa correndo em minhas veias.

Hoje, tantos anos depois de sua morte, consigo perceber que ele mal devia saber o que significava para mim. Por mais que eu tentasse me expressar através de palavras e gestos, no fundo nunca saberei exatamente se ele sabia o que representava na minha vida. Enquanto eu o tinha em minha frente, olhando nos seus olhos, era meu, só meu. No entanto, quando ia embora, já não sei mais de quem era, para quem dedicava seus pensamentos. Nossas conversas soltas, mãos dadas, gargalhadas, planos por fazer... Transformaram-se em lembranças minhas. Ainda hoje saber que ele não é meu dói incrivelmente, já que não posso mais alimentar a ilusão de que ele está vivo. Minha verdadeira culpa foi não ter tentado dizer o que aquele rapaz era para mim.

Comentários

ei, não eras aluna do pitágoras??? mais ou menos em 2001? lembro-me de ti... confirma! abraços
sim, justamente o jornalzinho, era muito legal. acho que cheguei a conversar contigo alguma vez, eu sempre participava das iniciativas com a profa. edna, como orientação vocacional e etc. depois veio o ano do vestibular e tudo ficou meio irresoluto, saí de lá em 2003. mas legal te encontrar, me diga, fizestes letras ou jornalismo?? eu acabei cursando artes visuais e agora, direito. abraços.