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Cara Clarice

Aquela coisa que ele estava sentindo devia ser, em última análise, apenas ele mesmo. O que teve o gosto que a língua tem na própria boca. E tal falta de nome como falta de nome ao gosto que a língua tem na boca. Não era, pois, nada mais que isso. (Clarice Lispector, A Maçã no Escuro)
Acenderam a luz e eu despertei. Abri os olhos sem querer, o cobertor no meu rosto. Ouvi o leve raspar dos meus cílios no tecido e repeti o movimento inúmeras vezes. A luz era rosa e eu me negava a viver, queria continuar ali no sonho, na sensação apenas.

Acordar verdadeiramente é um desafio ainda maior quando se está gripado. Quando fico doente sinto uma tristeza diferente de todas: a de reconhecer que estou fraca. Meus pensamentos se perdem e durmo tanto que até sinto culpa. Sou-me incapaz de fazer tudo como outrora.

Meias de lã. Sinto como se andasse em nuvens. A cada passo concluo ainda melhor que já não consigo mais pensar direito. Às vezes me pego andando em círculos, em busca de um centro. Não tenho dias de folga, a folga é que me tem, como se minha condição de vida fosse viver de férias.

Minha voz está fosca, já me falta há alguns dias. Ao encontrar-me com meu próprio silêncio me reconheço em meus limites, como um animal acuado. Quero falar o mínimo e isso aumenta o meu sentimento de solidão. Recolho-me. Já que fui obrigada a me estacionar não me resta nada além de mim.

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