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Mostrando postagens de 2011

[27 de dezembro de 2011]

Sinto nostalgia imensa Dos momentos que não vivi Daquilo que só vejo em foto Dos anos em que eu não era nascida Do doce sofrimento Em saber que em breve ou não Tudo o que conheço Terá mudado por completo Sinto saudade dos sorrisos gostosos Dos carinhos sinceros Do vento cortante Daquela música em que todos se divertiam tocando Dos imprevistos Das confissões E de tudo mais que não se pode fotografar

[23 de dezembro de 2011]

Aperta o coração
Uma felicidade pura
O vento lá fora
O sol pedindo passagem na janela
Uma música no YouTube
Um cobertor no colo
E o frio do inverno mais frio
Não adiantaria se não fosse o céu azul
As nuvens que passeiam sem pressa
Um potpourri de Jobim
E a certeza de que estou prestes
A chorar de felicidade

O dia em que pensei música

Numa xícara de café
Tomo a cidade inteira
Luzes cores cheiros
Sem açúcar na mesa
Minha língua marra
Engulo seco a manhã
Enquanto ainda é madrugada
A cidade me passeia
Conhece o que não conheço de mim
Me vasculha do início ao fim
Um casebre lá no morro
Um castelo de areia
Aquela foto rasgada
A rua XV cheia

Quem sabe eu só queira
Saber quem sabe
Mas não sei

Eu vago. E todas as minhas horas são vagas

Gosto das pessoas simples, daquelas que conseguem achar um ou dois afazeres para se distrair na vida. Algumas bobagens para esquecer que estão vivos. Mas eu sei tão bem que estou viva que não posso me dar a esse luxo. Não entro em rotinas, não sei me organizar, não consigo ficar parada. Quando penso que achei a chave para os meus anseios, uma semana passa e quero outra coisa totalmente nova e inusitada.

A minha fome é insaciável e provavelmente vou morrer com a minha fome. É incontrolável, quero tudo e nada, sempre diferente. Hoje estou aqui mas queria estar lá e amanhã quando eu estiver lá meu desejo será acolá além.

Admirável? Confuso? Não produzo, sou engolida pelos meus sonhos vivos, como plantas carnívoras que me arrancam a cabeça cada vez que penso em me estabelecer. Saudades eu tenho de tudo, até de respirar. Controle e equilíbrio são palavras fora do meu dicionário de sonhos perversos e inesperados.

O que você faz nas horas vagas? Eu vago. E todas as minhas horas são vagas.

O vicio em escrever

Aconteceu que, quando percebi, minhas mãos tremiam e a cabeça rodava. Já não conseguia dormir direito porque os pensamentos eram muitos, infinitos. Quando eu finalmente dormia, os sonhos me puxavam, eram estranhos e sugestivos, mundos complexos e em minha mente ecoava qualquer coisa parecida com "a história é muito boa, quando acordar preciso escrevê-la".

Minha grande frustração era acordar porque no mesmo instante eu esquecia as belas aventuras passadas. Era tão fantástico, tão perfeito e maravilhoso que talvez eu não merecesse saber o que acabara de sonhar. Restava a sensação.

Já cansado de buscar a ideia, quis apenas ficar em silêncio. Cheguei a pensar que talvez todo esse alvoroço interno fosse apenas uma impressão mal resolvida, uma válvula de escape, uma síndrome crônica de vagabundagem ou uma desculpa para não trabalhar.

Os dias que passo trancado são uma maravilha. Jogar-me no chão e olhar o teto branco por horas, sem necessidades ou aflições, só eu e o chão duro e s…

[12 de novembro de 2011]

Da vida levo
Um corpo cansado
E a tristeza pungente
Para que ando?
Na busca incasável
Em ter e o que ter
Morro a qualquer momento
Agora, depois
Sei que morro
E os vivos discutem
Brigam, roubam
Se desrespeitam
Se machucam
E morrem sempre no final
Não pensar?
Deixar viver até a morte?
Talvez morrer na esperança
De viver mais
Mas, já que estou vivo,
Aceito que nada
Faça sentido

[06 de novembro de 2011]

Diante do amor
Meu tudo monte
Na vida piro
E respiro
Dos eixos
Perdi todos
Minhas vaidades
Verdades complexas
Enchem meu ser
De pinguinhos
E me esvazia
E me aponta
Na rua sozinha
Sou uma tonta
Ando como quem samba
O asfalto quente
Frito um ovo
Como quem mente
Algo seminovo
Reflexo do dia
E do adiante
Antes pela meta
Que pela metonímia
Que sentido algum fizesse
E as palavras que o sono trouxesse
Fechassem os olhos com você
Quem dera!
Parar os pensamentos todos de uma vez
E da vida não esperar nada além
Nada

[24 de outubro de 2011]

Hoje
Ainda que sim
E tarde fosse
Você aqui
Respira comigo
Dentro de mim
Janela aberta
E o frio que dá
Enquanto durmo
Sonho-te e acordo
Te querendo mais
Dos perfumes bons
Eu sei todos
Sou capaz de chorar
O que me divide
Mancha ferrugem
No chão de outono
As folhas quebram
E eu ando
A lembrança se transforma
Em madrugada

[18 de outubro de 2011]

Espero que ouça:
No silêncio e na solidão
As paredes falam
Apenas a luz da luminária
Refletida na parede branca
O sonho de ter um canto só meu
Tudo branco, tudo luz
Efêmero meu, aqui estou
Entregue e plena
Preenchida de amores sempre
Mas sozinha
Como quem deixa o palco
O show continua
Agora que já existe deixa viver
Eu com olhos de luz abri
Um segundo
Do outro lado do mundo
Mas quem será que está aí?

Nos meus dias
Tudo de ter é supérfluo
E tudo de amar é somado

[13 de outubro de 2011]

Já disse antes, gosto de tudo que é natural. A vida acontece todos os dias, sem pressa, como num bom momento contínuo. Não há perfeição nem planejamento nas relações humanas. Improvisar é preciso, criar, agir, sonhar - tudo que diz respeito a pessoas de qualquer lugar do mundo. Parece bobo, mas pessoas são pessoas em qualquer lugar. A incrível força que nos move dia após dia não muda. O que me move nunca vai mudar.

[11 de outubro de 2011]

Pessoas de todos os lados, andando rápido, sem parar para pensar. Sem ver os anúncios, as outras pessoas, o que estava acontecendo. Os trens com horários precisos, lotados de pessoas com celulares em punho, lendo qualquer coisa, dormindo, cambaleando pro lado, a moça dorme e roça os cabelos tingidos no ombro do senhor que dorme também - ou será que finge dormir? Pronto, pegar o trem errado significa chegar muito mais rápido aonde não se quer. Pergunta daqui, pergunta dali, entende-se metade mas se chega lá. Duas pernas e uma boca levam você a qualquer lugar.

[06 de outubro de 2011]

Tudo que me cerca
Com força imensa me invade
O frescor da noite
Os grilos cantando
As folhas ao vento
As sombras, as formas
Luzes, cheiros, cores
Abro os olhos, tudo novo
Onde estou?
Uma realidade tamanha
Que dói encarar
Dia após dia
Além mar
Sacudir-se, desmanchar-se
Quebrar-se para descobrir
Os lindos pedaços que eu
Me negava ver
Ontem sofri, hoje não sofro mais
Apenas caminho e
Caminho e
Caminho

[02 de outubro de 2011 - relato do corpo]

Estou apenas comigo mesmo há quase uma semana. No quarto eu até posso sentir o silêncio, o silêncio do nada, de ter somente o corpo para carregar e nada mais. Sempre me perguntei por que ando. Afinal, por que não paramos um dia e nos esquecemos em algum canto? Não é que não haja outra saída além de andar, mas nós somos ambiciosos, sempre queremos mais. Não basta o corpo, temos a fome. E não basta a comida, queremos algo gostoso, que nos faça bem. Não basta ser o melhor se ainda não for o suficiente.

Como seres humanos que somos vivemos muitas experiências. Colocados no mundo, simplesmente começamos a andar e continuamos. Mas pessoas são complexas, vivem, guardam e esquecem de contar o relato do corpo. Esquecem de contar a loucura que é viver aonde quer que se esteja. Viver dói e cansa, apesar de ser bom.

Me sinto numa espécie de retiro espiritual, sem ter com quem conversar e pensando exclusivamente em mim. Não sinto tédio, sinto apenas uma espécie de silêncio interno - eu tão dividid…

[23 de setembro de 2011]

Gosto do que é natural. De tudo que acontece sem planejarmos, sem ser forçado, engolido, moído ou doído. Gosto de tudo que vem sem que ninguém te obrigue a nada. Gosto do que é leve, do que é simples, do que é bom para todos e não só uma compensação de interesses.

Quando eu quero eu digo. Se não quero também digo. Mas, por algum defeito na minha formação, quando não quero não faço. Veja bem, eu não sei fingir que estou feliz, que estou alegre, que me sinto satisfeita em ser obrigada a alguma coisa. E pior, ao contrário do resto do mundo, acho que o amor é algo bem mais leve e menos forçado que tem que ser demonstrado a todo instante.

Por que não me reservam o direito dizer tchau de leve, sem dor, sem peso, sem hora marcada?

[07 de setembro de 2011]

O que pode mudar
Além do que está mudo
De um dia pro outro
Um plano infalível
Um rompante de grito
Amor além de palavras
Jogar o corpo livre
Atirá-lo a outra direção
Mudar o curso
Percursar-se
Rasgar o desejo em pedaços
Desajeitar o profundo sonho
Movimentar-se em direção alheia
O limiar entre o puro desejo
E a completa negação
Prestes a atirar uma vida fora
Para colher outra diferente
Prestes a ser-me mais
Jogando fora tudo que sou

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Comecei a escrever com oito anos de idade, perguntando para a professora se eu poderia fazer poesias com as palavras que ela dava para os alunos fazerem frases. Eu não sabia bem o que era escrever, na minha casa não havia uma biblioteca e os únicos livros que eu vira até então eram os escolares mesmo. Na minha escolinha de bairro nem biblioteca havia.

Me lembro da primeira vez que entrei numa biblioteca. Foi simplesmente mágico, todos aqueles livros, um mundo sem igual que se abria diante dos meus olhos. De repente eu era amiga da bibliotecária, tinha a carteirinha lotada de empréstimos de livros açucarados e juvenis. Foi assim que descobri que eu também queria escrever um livro.

Tive uma professora que me incentivou muito, muito mesmo. Na escola havia uma matéria chamada "Oficina de Escrita", a que eu mais adorava. Escrevia mais em casa do que na aula, porque não me satisfazia escrever  perto das pessoas …

[30 de agosto de 2011]

Hoje me conte sobre liberdade, sobre a sensação de estar sem pertencer, sem ter que se lembrar todos os dias para que vivemos, para que continuamos o caminho morno, caminho confuso de palavras que nos escapam além de nosso mero encanto, além dos dias e noites de sonhos que às vezes queremos agarrar, às vezes queremos esquecer de tão lindos, tão reais que sem querer nos acontecem, nos montam e desmontam feito joguetes sem destino, feito peças de um jogo que ninguém sabe jogar direito, ninguém sabe encaixar os detalhes na face desejada, na face que assumimos como sendo a verdadeira, como sendo a que nos convém quando as palavras nos transbordam, quando é impossível interromper a cadeia e colocar um ponto final

Pouco antes de dormir percebo a irrealidade.

[24 de agosto de 2011]

Num sopro
Liberdade
Só saber
Nada
A vida simples
Da mente ignorante
Como se vivesse ordem
Sem sentido
Desfoque no canto
Fim da linha vejo
Quanto mais é menos
Sonhos em negrito
Um grito negro
De olhos fechados
Infinito
Joga fora meu corpo
Envolve gelado desejo
De mergulhar
No cheiro de jasmim
Explodo-me sem direito
De pedir licença

[25 de agosto de 2011]

Basta um pingo, um suspiro, um piscar e pronto: percebi que tudo o que me parecia perfeito começa a desmoronar. Dentro de mim como um muro alto, as bases já acertadas, a cor da tinta já escolhida e a ilusão. De um passo a outro e o espaço se transforma. Não como a venda que cai, já que nada foi desvendado, apenas uma realidade que se transforma diante dos meus olhos para depois se desfazer como areia.

A expectativa é uma loucura, uma conclusão de antes de começar, o medo e a vontade numa só palavra. A expectativa é um esperar errado, um esperar demais de coisa alguma sem pensar nas surpresas no caminho. Ser dono do próprio destino dá trabalho porque comandar não significa prever. Tudo que é terrível fica no silêncio, o medo puro nas coisas que não dizemos. A dor de dizer é bem menor que a dor de guardar.

[15 de agosto de 2011]

Em frente o céu ia escurecendo, pelo retrovisor percebi que deixava a tarde alaranjada para trás. Senti o cheiro de tomate recém cortado, aquele calor em que a pele começa a grudar na roupa e percebi que começava a entardecer cada vez mais tarde, mesmo estando ainda em agosto. O cara gordo segurou firme sua mala carteiro enquanto corria afoito por entre os carros. Logo estava na calçada como mais alguém, sem a pressa de segundos antes. O sinal abriu e eu me esforcei para coordenar os pés por entre os pedais que tão bem conhecia, quase que um maniqueísmo forçado sobre como se deve dirigir. Eu sei, não pensar em estar seguro é estar seguro, já que se não há dúvida não há medo. Na rua reta tão conhecida, não haveria motivos para desconfiar da capacidade de seguir em frente, mas num óbvio rompante de vazio, o medo transforma-se em papel principal e o desejo é parar. Para a vida, chega da mentira de todos os dias, tapando um buraco oco que nos ocorre. Se medo não houvesse, eu seria um irre…

[12 de agosto de 2011]

O tubo da caneta é como uma lente. Giro-o e as gotas de tinta aumentam e diminuem, refratam. Puxo a ponta da caneta e ela termina antes do esperado, era menor do que eu imaginava. Letras grandes com pensamentos pontiagudos, indo para um dia quem sabe talvez a descoberta de mim por mim mesma num tropeço da minha própria falta de virtudes.

[12 de agosto de 2011]

Maravilhada, abriu o pacote e a tirou da caixa. Seus cachinhos amarelos, sua roupinha branca e alaranjada, o barulho de sino que às vezes fazia ao ser sacudida. De algum lugar ela haveria de soltar barulho, pensou se colocando no lugar da boneca que tinha em mãos. Quem sabe nas costas, logo acima da cintura, e lá estava a alavanca, a chave para a musiquinha misteriosa: era uma boneca boba de corda.

Sabe-se lá quantas voltas recebeu a boneca tonta e tal foi o encantamento da mulher quando as notinhas agudas de Für Elise começaram a tocar. Segurou-a na altura dos olhos, a mais ou menos meio metro do rosto, e fixou os olhos na bonequinha.

Movimentava a cabeça vagarosamente, numa volta infinita, seus cachinhos dourados, a pele alva. Seus olhos verdes brilhavam como se, enquanto a boneca ganhava vida, a mulher paralisava-se num encantamento reverso: a boneca era ela.

Numa alegria desajeitada, não sabia se a boneca em suas mãos era sua por direito. Às vezes gostava tanto que não sabia se me…

[10 de agosto de 2011]

Viver é um grande clichê e uma grande loucura. Todos sabem tudo, inclusive sabem que não sabem nada. Quietos, resignados, ninguém quer chorar seus problemas para quem não quer ouvir - mas, afinal, todos não querem ser ouvidos? Lembrados, reunidos, fotografados, reconhecidos, amados, plenos? Se caminhamos, se temos um objetivo, é natural que sejamos egoístas. Em algum momento querermos ser mais que o outro, queremos ser especiais, não é possível negar.

O reflexo é sempre difícil. Seus olhos no olhos, as verdades que contamos apenas para nós mesmos, uma montoeira de mentiras para o resto do mundo todos os dias. Estarei mentindo se eu disser que não sei mentir. Vou mentir hoje e amanhã e, para resumir a obra, mentirei eternamente enquanto você lê as minhas mentiras.

Entendo bem mas não entendo nada. Não nasci para entender, apenas para observar. Os caminhos deixados pela lesma nas calçadas. O céu, que mesmo negro, ainda guarda um resto de entardecer. As frestas da persiana, como se com g…

[07 de agosto de 2011]

A ansiedade de se descobrir inteira ao invés de pela metade. De se notar encaminhada e não sem destino - mesmo que o novo caminho seja incerto. O que poderei fazer para arrancar do meu peito a extrema energia, a vontade de correr, a euforia que carrego e que se manifesta nas horas mais impróprias? Pausar a vida e pular a espera, como num filme em VHS, chegar a um clímax sem expectativa - um prazer puro e sem causa, mas muito intenso. Pular a gravidez e ter já o filho, sem o trabalho e a dor, mas com a consciência de eu mãe, plena.

Às vezes me pergunto por que dá tanto trabalho viver. Se ao menos minha mente estacionasse em algum ponto - mas não estaciona. Minha angústia é saber que logo acontecerá algo que eu esperava mesmo sem saber exatamente o que esperar. É como se, num complexo de mim mesma, eu me buscasse desesperadamente atrás do espelho com o coração apertado.

A todo instante, como num mantra pessoal, penso que tudo vai dar certo. Tenho jogado fora um punhado de objetos e conv…

Grama Ana

Ana era um anagrama de si mesma. Às vezes mudava de lugar seus detalhes como quem esquece de fechar as janelas antes da chuva. Trabalhava miúda como vendedora de uma loja de sapatos, estava sempre com o rosto maquiado e os cabelos bem arrumados. Ia todos os dias àquela caixa fechada, ar condicionado ligado todo o tempo, não fazia frio nem calor, não chovia nem ventava. Seria maravilhoso se não fosse sempre.

Para quem passa, ali é o paraíso. O mundo de calçados inclinados, cores, saltos, poder, solados coloridos, canos altos, trançados, toc toc toc. Ana não fazia parte da estúpida parcela de pessoas que passavam com seus sapatos querendo mais sapatos. Enchia-lhe os olhos como uma foto, mas no fundo era ela um sapato apertado. Achava-se de beleza razoável, quando na escola fora escolhida Miss Ensino Médio num concurso qualquer, e desde então imaginou-se o centro das atenções do seu próprio mundo. Foi assim que percebeu que deveria ser vendedora.

A grama de Ana era motivo de inveja de mu…

[02 de agosto de 2011]

Gosto de apagar a lâmpada fluorescente e observa-la enquanto ela some na escuridão como uma pessoa que aos poucos vai adormecendo. Sem pressa, no mundo ela está ali para ser esquecida sem demora. De sol intenso ela vira lua, apenas como reflexo do que era, um satélite, uma lembrança boa que aos poucos se apaga de nossas memórias e se perde na escuridão.

[29 de julho de 2011]

Fazer uma corrente do meu eu para ver se encontro algum elo de ligação. Estou me desfazendo aos poucos mas num sentido bom, tentando tirar os acúmulos e cúmulos dos cantos, devolvendo emprestados, finalizando tarefas antigas e lembrando sempre da minha razão para respirar.

Sinto que vou me simplificando mas sem deixar de complicar tudo que me cerca. Me distribuo, me doou num ato egoísta, numa forma de encontro.

Estou feliz, uma felicidade de não pertencer a nada e ser do mundo, desintegrada de coisa alguma.

O próximo dia e um arrepio na espinha: está passando. Num tropeço alguém me lerá e no devaneio queria que ninguém me lesse. Seria fácil se esconder se fosse fácil, mas não é.

Dias enfileirados, um após o outro. Eu preferiria viver os dias uns antes dos outros, com uma prévia do que aconteceria no anterior já que estaria vivendo o próximo.

Alegria mesmo é noite, conforto e reclusão. Seria fácil se não fosse eu.

[26 de julho de 2011]

Dentro da luz rósea me dizia: decidi te amar dentre todo o resto. Eu sentia aquela melancolia da desilusão, um vaso quebrado, eu rosa murcha, mas mesmo assim aceitei o que ouvira. Ele me pegou a mão e com seu jeito sem jeito foi mostrando o outro lado daquilo que eu nunca vira, a simplicidade de respirar e inspirar sem pressa nem ansiedade. Meu coração acelerado e o dele normal, qual o problema? Pensei em perguntar se eu era pouca emoção pra ele, mas aos poucos percebi que enxergava só a casca e na casca não vejo aquela emoção de dentro. Enxergar-se de dentro pra fora é fácil, problema é perceber de fora pra dentro.

Todos sempre clichê, sempre tão cheios de dúvidas e receios mas tão cheios de energia, continuam andando, trabalhando, gastando o que podem e o que não, correndo correndo. Olhando assim parece bem, tudo funcionando, ninguém fala sobre o que dói, só correm. Viver simples um dia após o outro simples viver. Se um dia as pernas param de correr, correr é necessário?

Vamos, esqu…

[21 de julho de 2011]

O velho clichê desponta em minha mente: ninguém é insubstituível. Estando tão próxima de me ausentar daqui e ir para o outro lado do mundo, há sempre a dúvida sobre como todas as atividades que eu desempenho por aqui continuarão acontecendo e, talvez por medida de segurança, eu as esteja deixando de lado já de antemão. O problema é que a sensação de estar sendo substituída não me abandona em momento algum e eu fico com a impressão de que, uma vez de volta, meu lugar não estará vago.

Sou egoísta, ciumenta e possessiva, o que faz de mim uma mulher bomba atômica de reações imprevisíveis. Abandonar a casa assim logo agora que as bases estavam boas a e construção começou é muito arriscado pra mim. Certos dias penso em fugir para então em outro momento me arrepender por ter fugido. Meu corpo vai cansando do jogo e a cabeça roda a todo instante, uma eterna vertigem.

De todas as incertezas o certo é que a minha ausência fará com que eu abra mão do lugar que construí e isso, sem dúvida, me dá …

Eu como Inimigo do Tempo

Medo
O logo tão já
Igual e sempre
Enquanto eu
Inimigo do tempo
Congela-lo quero
Parem os relógios
Desvio a Av das Torres
Sigo lento a Salgado Filho
Freando muito nas lombadas
Indo atrás de caminhões
Adiando a chegada
Adiantando a saída
Um tempo em que tudo penso
E em tudo o tempo me pensa
Me pesa
Não dormir
Nem se mexer
Apenas os dias passando pela janela
Sem prazo de validade
Sem dúvidas sobre logo
Sem a sensação de que algo se esvai
Juventude sonhos dinheiro tempo
Os dias que eram lindos
A coragem de pisar no acelerador
Cuspir chiclete bater porta
A ingenuidade e a confiança no mundo
Do nunca vai acontecer comigo
Ontem mesmo o tempo era meu
O tinha todo e nunca me faltou
Eu que tinha todo o tempo do mundo
Do mundo todo é o meu tempo

[15 de julho de 2011]

Não costumo ver a manhã, amante da madrugada que sou. A luz difusa que se fortalece aos poucos, o cinza que se transforma em azul e amarelo, os pássaros que cantam, brisa fria, cheiros. A vontade de ficar na cama entre o sonho e a realidade, sentir que a vida lhe entra vagarosamente, com silêncio, assim como quando lhe sai aos poucos antes de dormir. Ter tempo para acordar mesmo com sono, não saber se fará frio ou calor já que estou em Curitiba, olhar os primeiros movimentos de si mesmo com preguiça.

A cafeína aciona meu cérebro, meu corpo se amorna e o céu fica mais azul. Os sons aumentam, os carros passam e a sensação de paz vira saudade.

[14 de julho de 2011]

Minha cabeça dói como se estivesse crua e meu corpo pesa. Da caneta e do caderno, da luz e da angústia, só sei que estou entregue. Hoje acordei num desespero e vou dormir envolvida pela minha ilusão de que tudo se resolverá. Sinto-me honesta com o mundo, como se caminhar fosse sentir todos os músculos em movimento, todo o peso do corpo. Caminho não pela liberdade, mas por saber que preciso dar o próximo passo.

Ao efêmero do que se é

[12 de julho de 2011]

Me perguntaram como me vejo daqui dez anos. Apesar da certa vergonha que me veio imediatamente (vergonha do que, afinal?) respondi que me via como escritora. O problema mesmo veio depois, quando pensei no que eu estava fazendo naquele momento para que isso acontecesse. Resposta rápida, fazia nada.

"Eu? Escritora? Estou longe disso, tenho muito o que aprender. Tenho que ler muito, muito mais para chegar aos pés de qualquer coisa que seja parecido com um escritor."

É, mas se eu continuar pensando assim vou morrer seca, então o negócio é o seguinte: eu sou escritora, está decidido. Por mais difícil que seja definir o que faz de um escritor, eu decidi que sou uma. De maneira geral não há um curso, um caminho, um guia, uma prova, nada que diga que a pessoa é ou não é escritor.

Para mim a resposta é muito mais simples: se eu deixo de escrever vou secando, não sonho mais. Escrever tudo, de tudo e para todos, sem limites, sem  preciosismos e, principalmente, se…

Fugindo [10 de julho de 2011]

O realidade não é nada criativa, por isso eu tenho que fugir. Escapar dos meus próprios pensamentos sobre o que tenho que fazer em seguida para criar algo novo, libertar minhas outras idéias. Escrever não é nada além de uma recriação da realidade, um alimento para os sonhos escondidos, as vontades reprimidas.

Quanto mais escrevo, mais me sinto livre. Posso ter preocupações a todo tempo, não importa, desde que eu possa escrever todos os dias. E quanto mais escrevo, mas sinto vontade de jogar-me fora. Juntei tanto que agora só quero arrumar tudo e me livrar do que não me importa mais.

Fujo das buscas alheias, de dinheiro, de bens, de estabilidade, de trabalhar das 8h às 18h, de festas, de shoppings, de lotações, de barulhos, de velocidade, de estresse, de cansaço, de muito ter tanto que não há tempo de aproveitar, de remédios e te tudo mais que dizem que é o certo.

Fugindo sim, mas não para me esconder: quero me mostrar, mostrar o outro lado.

Cabra Cega [06 e 07 de julho de 2011]

Ontem, 20h. Estava terminando o banho quando o vácuo engoliu minha realidade: acabou a luz. O corpo todo molhado, o frio de 5ºC do inverno de Curitiba e o nada. Tudo o que eu queria era me aquecer, me secar, encontrar as peças de roupa. A minha noção de espaço piora ainda mais no escuro, então esticava a mão a todo instante em busca da parede mais próxima e usava o tato para identificar as peças de roupa. No frio a situação corriqueira - sempre acompanhada de um bom aquecedor - tornou-se lenta e cinestésica.

Quando eu era pequena não gostava de ter os olhos vendados. Tinha certa aflição, não conseguia encontrar ninguém quando eu era a cabra cega. Me lembro bem de uma vez em que eu troquei todos os lados do meu próprio quarto enquanto procurava meus amigos, refiz todas as distâncias, a posição dos móveis, a incidência das luzes, tudo. Quando retirei a venda levei um susto porque os conceitos novos estavam tão fixos em minha mente que demorei um pouco até me acostumar com a realidade.

J…

(in)justiça cega [30 de junho de 2011]

É estranha a sensação de ter recém descoberto uma injustiça. Um misto de revolta com mãos atadas, de raiva e conformismo. Pior é não saber quem foi, por onde começou, o que causou, como se viesse do nada e fosse para lugar algum.

Isso não é coisa que se resolve naturalmente ou que se deixa passar, mas é preciso calma e amor agora. União.

Confiança e ética são palavras que não existem para certas pessoas.

Minha fobia de seguir em frente

Desde o instante que eu descobri que iria viajar para o outro lado do mundo por seis meses, nem meu coração e nem meu corpo são mais os mesmos. Sinto dores, palpitações, alegrias e tristezas extremas - opa, isso é meio normal para mim, sou meio instável - enfim, vivo entupida de emoções. Quando fui tentar algo novo por aqui mesmo, não foi diferente.

Eu não dirijo em estradas, tenho terror de viajar por conta própria, prefiro que me carreguem mesmo. Mas eu precisava ir até a casa de um amigo em Campo Largo, cidade vizinha de Curitiba, coisa rápida de 1h no máximo. O problema é que eu entrei em pânico, estava chovendo, eu estava no meio do nada e havia muitos caminhões - ou seja, eu não consegui ir pra frente.

O medo, esse medo incontrolável de ir pra frente quando se está no meio do caminho. Na situação na qual me encontro, prestes a viajar e viver situações completamente novas e desconhecidas, é bem interessante que eu tenha medo de seguir em frente. Tive medo de não enxergar direito,…

[30 de junho de 2011]

Por algum motivo tenho facilidade em esquecer as coisas ruins que me acontecem. Me esqueço de coisas bem simples, como o motivo de não usar mais tal sapato, tal blusa, de não agir de tal forma, de ignorar certo assunto, do motivo exato da briga com tal pessoa... Esqueço também de sentimentos grandes, de mágoas que me machucaram profundamente e se transformam em momentos banais, pedaços de passado. O problema mesmo é quando me esqueço das coisas boas.
Esquecer as risadas gostosas, as piadas entre amigos, a convivência fácil com as pessoas, os dias que passam tranquilos, os motivos que me fizeram fazer as escolhas que fiz, a boa comida sempre, a saúde, a alegria de poder continuar viva, o amor que tenho pelo que faço e o carinho que deposito em tudo que me rodeia. Me esqueço e quero mudar tudo só porque foram alguns dias ruins, a rotina me engoliu, não tive tempo para amar direito e... preciso mudar rápido.
Também esqueço outras coisas, como a emoção de ouvir certa música, o abraço apert…

Livrem-me da literatura acadêmica!

Talvez eu seja muito cética ou muito imatura, mas eu não entendo qual a importância de se avaliar, analisar, desvendar, desmembrar os conhecimentos sobre literatura. Ao meu ver, sinceramente, acho que a pessoa tem que ler, ler quanto quiser, quanto necessitar para se sentir satisfeita e tirar as suas lições de vida, as suas conclusões.
Dito isso, acho impossível fazer uma prova sobre literatura. Dar nota para uma análise, alguns dados históricos e umas meras comparações. Eu, sinceramente, me recuso. Quero deixar bem claro, eu não acredito em literatura acadêmica, para mim isso não funciona, é mera ilusão. Concordo muito mais com Paulo Leminski, os acadêmicos que fiquem lá nas bancadas, e eu aqui no meu canto.
Me sinto muito triste em pensar que passo dias e dias ouvindo, prestando atenção, aprendendo coisas novas para chegar no final, eu, um pedaço de papel e algumas perguntas bobas que não fazem parte do que teve verdadeiro valor para mim. Talvez eu seja uma louca entre os normais, m…

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02 Refletores angular 030.
02 Sombrinhas refletoras com capa reversível, prateada / dourada com 90,0cm de diâmetro.
02 Tripés marca WF modelo 806 com altura máxima = 245,0cm.

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Lâmpada modeladora de 60W com chave individual de liga/desliga.
Fotocélula embutida.

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Cabo de força com 5 metros.
Tampa protetora das lâmpadas.
Articulação em nylon com encaixe para sombrinha e tripé.
Tempo de recarga de 3 segundos.

Acompanha o Suporte para fundo infinito móvel com tripés para 01 eixo. Fácil de montar e desmontar pode-se levar para qualquer lugar.
Formado por 02 tripés WF 806…

[20 de junho de 2011]

Corpo pesado. Sentir dor da cabeça até a ponta dos pés. Os músculos, estralos, tensões, tonturas, dores, texturas, cheiros, sensações. Se eu ficasse sentada ou deitada o dia inteiro não seria a mesma coisa, definitivamente. Pensei um pouco e concluí que só pode ser uma coisa: estou viva.
Existe uma prazer delicioso em se saber vivo. Em saber que o seu corpo se move por um propósito, que você caminho por alguma coisa. Para completar algo. Para atingir aquele ponto, alcançar aquela estrela. Por mais ilusório que seja, por mais fantástico e louco que pareça, é aquela estrela que eu quero alcançar agora. É por ela que estou me mexendo nesse instante. Não acredito numa vida sem sentido algum, na qual os dias passam sem que nada de novo seja consequência do antigo. Nada é constante.
No entanto não acredito que seja necessário se esforçar ao máximo, porque o equilíbrio não combina com extremidades. Penso apenas num esforço um pouco além do normal, apenas a ponto de te dar prazer. A vida sem es…

Discurso sobre o Amor

O amor não é único. Não acredito que ele possa ser um sentimento uno quando somos todos diferentes e amamos pessoas diferentes, coisas diferentes, animais diferentes, gestos diferentes.
O amor que está ao lado é diferente do que está no próximo cômodo. O amor do primeiro amor é diferente do segundo. O amor de quem está perto e de quem está longe. O amor que nos faz rir toda hora e o amor do silêncio. O amor de muitas idéias brilhantes e o das palhaçadas. O amor das palavras rabiscadas no guardanapo e o dos livros de autores mortos. O amor que acabou de chegar e o que sempre esteve conosco. O amor recém descoberto e o amor estruturado. O amor antes ódio e o amor sempre igual. O amor de luzes e o amor de escuridão. O amor que nos cega e o que nos abre os olhos. O amor material e o espiritual. O amor de quem podemos abraçar e o daqueles de quem apenas podemos recordar.
Pode ser uma única palavra, mas não múltiplos os significados. Se fosse tão simples assim não nos enganaríamos tão facil…

[10 de junho de 2011]

Cegos. Empilhando os dias, um após o outro. Levando o corpo aonde quer que seja, mas levando. Com ou sem vontade, se arrastando. Um mar de pessoas cegas saindo às 18h em ponto dos prédios da cidade, cada qual indo para sua casa, para o seu conforto.
Um mar de pensamentos dentro de cada um, e mesmo assim cegos. Cegos que enxergam apenas o que é necessário para se justificar, cegos de si próprios, mesmo achando que se sabem muito bem.
Não apenas a aceitação de que não nos conhecemos, mas a constatação de que não nos conhecemos verdadeiramente. Os piores defeitos, os mais baixos, temos todos.

[09 de junho de 2011]

Loucos. Loucos de amor, de desejo, de querer ter e não saber como. Loucos para chegar lá e mais além sem saber onde. Loucos Para ganhar muito, ganhar mais ainda e ainda achar pouco. Estamos todos loucos, uns que querem entrar e outros que querem sair. Descontentes, indecisos, medrosos, irredutíveis.
Sou uma louca que sofre por banalidades. Dei tantas voltas que virei uma barata tonta sem direção. Foi assim que decidi largar a minha carcaça e viver como uma lesma até o fim dos meus dias, deixando brilhantes rastros pelo caminho.
Ah, essa noite as palavras demoraram mais do que eu imaginava para sair desse coração vagabundo.

Amor Sui Generis

As costas encostadas no muro chapiscado, a pressão do momento fazendo com aquelas pontas malditas mais parecessem pregos, uma cama de pregos. Mas valia a pena, tudo pelo passeio das mãos no corpo, os beijos intermináveis naquela noite fria em que dois eram quase um, não havia frio nem dores que atrapalhassem.
Os carros que passavam, já bem esparsos pelo horário, iluminavam a cena como um raio, um flash, a fotografia do canto escuro que parecia, outrora, tão escondido dos olhos do mundo. Mão na mão, mão no braço, mão no ombro, mão no rosto, mãos nos cabelos, mãos rastejando lentamente nas costas, mãos na bunda, mãos já dentro da calça...
Na tentativa de fugir se é enlaçado, obrigado a ficar e continuar a brincadeira. A vontade de erguer a camiseta e arranhar as costas, as pontas do muro furando o corpo, uma dor gostosa e pungente, o frio, aquele maldito frio que não deixa separar.
Um flagra. Uma loucura. Um amor sui generis.

Angústia Construtiva

A angústia existe quando vivemos com amarras. Daí temos dores no peito, tensão nas costas, tonturas, dores de cabeça, energia demasiada para nada, porque estamos sem energia. Quando nos preocupamos com o julgamento dos outros. Quando pensamos que tudo aquilo que gostávamos de fazer é inútil e só gasta dinheiro.
Remédios, terapia, tudo uma grande loucura e ilusão. Não, não é que eu não fale, não é que eu não me expresse, não é que os conselhos são ruins. Sabe, estou morrendo a cada dia que passa, morro um pouco, estou sempre morrendo, eu sinto isso, só os inocentes não sabem que estão morrendo um pouco mais a cada segundo que passa.
Estou cansada de dar satisfações a todo instante, de olhar sempre a cara das pessoas, de não ter solidão em nenhum momento, de não poder ficar em silêncio com frequência, de não ter paz para escrever somente, de pessoas me cobrando coisas que eu não quero fazer. Preciso de um tempo parada, livre, alguém me dê tempo porque eu estou morrendo.
Não quero que voc…

Desconstrutiva

Já me cansei da vida regradaDe todas as coisas em seu devido lugar De um mundo certo e certeiro Das utilidades das gavetas De pessoas que são números em pastas Estou farta de tudo que é perfeito Do cheiroso e bem vestido homem Sempre cheio de amor e dinheiro Sorridente lindo loiro alto olhos azuis E que ainda sabe muito bem como agradar uma mulher É advogado e que casar ter filhos Serei sua escrava para separar suas gravatas por cor Ah, tenho sono só de pensar
A minha vida é o abismo da bagunça Dos papéis perfumados e cheios de lembranças Da valorização dos detalhes A desorganização nada construtiva Um mar de muito de tudo De todo samba que eu possa cantar Porque eu quero a vida de um bêbado Que anda torto pelas ruas um pobre Um cara sem nada com o que se preocupar Sem papéis para organizar O artista que vive de cachaça e respirar Me cansam as regras então me deixe bagunçar Me permita existir sem padrão de nada Não me obrigue mudar porque só terá meu ódio Porque quando eu mudar já estarei morta de mim

A Curitiba que se esconde em Curitiba

Todo artista que mora em Curitiba deve viver em conflito: sabemos que aqui estão artistas muito bons mas que não querem estar aqui, exatamente. "Tão perto mas tão longe de São Paulo..." É como se São Paulo fosse a porta para o resto do mundo, a exposição máxima, o reconhecimento maior. Bem, isso não existe, ainda mais nos dias de hoje. Ser artista atualemente, ser reconhecido, ter fama, não garante que sua fama seja eterna, muito pelo contrário. A possibilidade de ser esquecido é muito maior do que a de ser lembrado. São inúmeros os famosos de momento, os gênios da última hora. As vantagens e as desvantagens da era da informação.

Aqui em Curitiba temos artistas muito bons, conheço vários, muita gente criativa que cruza as ruas dessa cidade já não tão pacata assim. Só em Curitiba poderia existir Dalton Trevisan, Leminski, Oil Man, entre outros. O verdadeiro artista independe da fama midiática, ele precisa apenas sobreviver a si mesmo. Ter boas sacadas e não necessariamente id…

[23 de maio de 2011]

Hoje nem meu corpo e nem minha mente funcionam direito. Depois de dez dias de um desgaste quase no limite da minha capacidade, o que será que sobra? Para mim sobra apenas a confirmação de algo que eu já sabia muito bem: não adianta se matar por algo material. O fato é que todos precisamos trabalhar, mas antes de trabalhar é necessário saber o quanto estamos dispostos a abrir mão para então escolhermos a nossa profissão. Acho muito ruim quando as pessoas dizem “tudo o que eu queria era ficar dormindo o dia inteiro”. Eu não quero ficar dormindo o dia inteiro, 365 dias por ano, mas não estou disposta a trabalhar para alguém com quem eu não concorde só para ganhar dinheiro. Eu quero ser livre para criar, para imaginar, para resolver problemas diferentes e transformar meus dias em dias novos sempre ao invés de ter horário para tudo e a ilusão de segurança financeira. Eu gosto da insegurança, da aparente falta de compromisso, da possibilidade de conhecer pessoas novas e inteligentes, das pe…

Para um futuro próximo

Estou aqui na Feiarte espantando moscas e pensei que só me restava transformar o tédio em poesia. Olhando as pessoas a minha volta – não os amigos, mas os desconhecidos – comecei a pensar se é isso mesmo que quero para mim durante os anos. Cheguei a conclusão que não, que não quero passar não sei quanto tempo em feiras, faça frio ou calor, implorando com o olhar que alguém compre alguma coisa. Olhares curiosos tentando saber do que se trata o produto e passando para o próximo. Eu também faço isso em feiras, todos fazemos. Não estou falando aqui de humanização de vendedores, estou apenas fazendo uma análise pessoal da minha visão de dentro da barraca.

Demorei muito para admitir isso, mas hoje sei que quero viver de escrever. Quero ser escritora, mas não só publicar um livro para sanar uma vontade. Quero escrever para mexer com as pessoas, principalmente comigo mesma. Quero poder, nem que seja de vez em quando, provocar lágrimas nos leitores, transmitir emoções, raivas, polêmicas. Quer…

Homoafetivos e a adoção de crianças

Hoje ouvi alguém falando que até aceita que casais homossexuais tenham todos os direitos de casais heteros, mas que não aceita que eles adotem um filho. A alegação é que a cabeça dessa criança viraria uma bagunça, e principalmente que a convivência dela na escola, por exemplo, não seria das melhores, já que seus coleguinhas o apontariam como a criança que é criada por um casal de pessoas do mesmo sexo.
Bem, de certa maneira ele até tem razão, a sociedade brasileira ainda não está exatamente pronta para aceitar calada uma situação dessas. As crianças - e seus pais - estão cheios de preconceitos e opiniões próprias, além de toda a cultura machista que faz parte do nosso país e história. Concordo também que uma criança adotada por um casal homoafetivo vá passar por vários desafios na vida, terá que enfrentar o mundo, argumentar com as pessoas, etc. Assim como qualquer outra criança.
Por outro lado o procedimento para adoção não é tão simples assim. Além do casal ter que provar que é capaz …

[29 de abril de 2011]

Universidades são uma grande utopia. Pesquisas acadêmicas, teorias, conceitos, descobertas, teses, textos, pilhas e mais pilhas de conhecimento que ficam para sempre alojados naquele espaço, nunca saem de lá. Gosto de aprender para aplicar em outros lugares, longe de lá. Mas não importa o quanto eu me esforce se os professores - muitos, não digo todos - ficam presos nesse mundinho utópico e rodeado de teorias.

O mundo hoje exige ações práticas, rapidez, velocidade da informação. Informação superficial para quem quer consumi-la, informações complexas para quem está estudando. Não podemos ignorar nem uma nem outra, mas de ambos os lado vejo como as pessoas fingem que não existe o outro ponto de vista. Talvez todos aqueles que vivam longe da erudição sejam mais sinceros consigo mesmos do que os que vivem a erudição exagerada - e por que não dizer falsa?

Olho o mundo com olhos de turista, estou sempre passeando por ele. Não sei como mas consigo ver cores diferentes nas cores iguais de todos…

[28 de abril de 2011]

Até pouco antes de entrar para o meu primeiro curso na faculdade, eu não faltava a nenhuma aula. Minha vida se resumia a casa e escola, nada além disso. Parece triste se você pensar que hoje na adolescência as pessoas parecem tão livres e donas de si, com opinião própria, gostos, manias - uns pequenos grandes. Eu mesma não sei definir a idade das pessoas, porque quando eu tinha a idade deles eu era bem diferente. Era uma adolescente reclusa - bem mais reclusa que hoje em dia - e sair não me fazia tanta falta assim porque, afinal, eu não conhecia nenhuma vida diferente da que eu vivia.

Odeio ficar doente, acho que uma das piores coisas de estar vivo é ficar doente. Sempre que ficava doente na escola e tinha que faltar às aulas, me fazia a seguinte pergunta: será que alguém vai sentir a minha falta? Logo eu, tão caxias, sempre ali, será que alguém vai notar? Nunca soube a resposta.

Já na universidade a preguiça do mundo começou a me tomar. Já estou bem longe do questionamento primeiro, do…

[27 de abril de 2011]

Fico pensando desesperada, às vezes, por que escrevo? Jogo uma palavras por aí e sei que ninguém as lê. Fico desiludida. Será mesmo um esforço em vão ou algum dia alguém vai tropeçar nas minhas besteiras? As pessoas falam sobre tudo, cada vez falam mais, tanta coisa para ver e ler, então chego a conclusão de que estou sendo inocente. Consigo me convencer, em pouco tempo, de que escrever não vale a pena da caneta que gastamos, nem o tempo e nem nada, porque sempre tem alguém fazendo a mesma coisa que você. Certo?

Não sei.

Há tanto mas não há tudo, então penso que eu talvez não seja mais uma inútil falando besteiras. Acredito que o problema é quando ficamos sozinhos, cara a cara com nós mesmos e descobrimos que não é bem falta de vontade, mas é medo de tentar. Escrever todos os dias, que bela banalidade, isso te dá comida? E o futuro, onde fica? Tem certeza que escrever e investir o seu tempo soltando umas palavras sem sentido é certo?

Talvez.

Não sei ser outra, então me aceito. Não me acei…

Indefinível praia

Não sei maresia, não sei areia, não sei mar, não sei sal na pele, não sei suor salgado, não sei nadar, não sei conchinhas, não sei ondas, não sei buracos, não sei beira-mar, não sei biquini, não sei cabelos secos e molhados, não sei praia.

Sei que tive medo de ser levada pelo mar quando tinha sete anos.

Vejo uma foto na qual eu estou entre meus pais, feliz da vida com meu biquini azul e vermelho de criança.

[11 de fevereiro de 2011]

Meu sonho está delicadamente ganhando forma. Ouso dizer que hoje, depois de anos grávida, começo a pari-lo. Estou me remexendo por completo, sei que vou cnasar mas preciso juntar esses pedaços de vida que cultivei durante os anos. Do mundo já não tenho mais medo, ouso dizer que finalmente decidi fazer o que há tempos eu deveria ter feito: abraçar-me longamente.

[10 de março de 2011]

Do desejo faço vida
E da vida tenho medo
Meu peito se rasga
Eu não sou eu
Apenas estou eu agora
Minhas retas tortas
Curvas bifurcadas
Vida vida uma piada
Se alguns planejam
Eu apenas sonho
Sonho na constante da dúvida
De nunca acontecer
Nada é certo
Nem mesmo a incerteza
Meu destino não foi traçado
É um velho descontrolado
Cego, surdo e mudo
Que me guia
Sem direção

Pó Azia

Escrevou porque
Sou egoísta
Estou longe
De ser artista
Desenho letrinhas
Por diversão
Meu negócio mesmo
É fruição
Grande merda
A poesia
A arte é linda
E vazia
Não quero mudar
O mundo
Nem regenerar
Um vagabundo
Escrevo porque
Com sorte
Quem sabe eu vença
A morte
Depois de morta
E enterrada
De mim não sobre
Nada nada
Umas palavras no papel
De bolor
Causem algum tipo
De furor
Talvez encontrem
Uma escritora
De muitas mentiras
Uma inventora

Sobre Criação

Sou eu a criatura e vivo com minhas criações. Só quem planeja, molda e sonha sabe o prazer de viver diariamente com seus personagens, eles vivos a todo instante, pulsando, pulsando, coisa linda. Eles existem, penso e prossigo, uma poesia rouca e leve é criar. Às vezes nem sempre o esperado mas sempre o suficiente, porque enquanto a caneta não pára nós podemos mais.

Criar como numa música, há pausas e silêncios, nem sempre há barulho mas há sempre vontade que move. Nem sei mais o que tanto escrevi, mas se eu bater o olho me reconheço criatura daquela criação. Uma parte de mim que agora é do mundo mas ainda mim, uma tropofagia de mim no mundo e do mundo em mim.

Eu sou minha criação. Luto para nunca ser a mesma sendo a mesma. Desconstruo pensamentos para encontrar meu novo velho ponto de vista. Tudo mutável mas também com essencia. Eu sou minha criatura, testo em mim antes de dar vida aos personagens, vivo uma mentira e só sei escrever sobre o que me acontece de verdade. Sou verdadeirament…

[18 de janeiro de 2011

Na turva madrugada
Vive um sonho infantil
Alimentado e alimentando
Um papel vazio

Tanto quero eu
Dessa vida meio mole
Passo o sono e sem querer
A madrugada me engole

Sonha o sonho que comigo sonho
O problema de entregar-se é simples
Não sei se toda sou-me sonho
Ou apenas ilusão com requinte

Adormeço numa grande loucura
Do grande enredo a imagem
Desperto enfim e o real me acerta
Do sonho resta apenas miragem

Meu sonho de escrever

Jogada na cama, olhando para o teto branco e as nuances de luz e sombra produzidas pela lâmpada do abajur, eu penso: quero escrever.

Quero escrever de atravessar-me, de parar de respirar, de provocação de sentimentos. Quero uma idéia e escreve-la de verdade ao invés de textos curtos que mal começam quando chegam ao fim.

Um escrever que me acompanhe diariamente, seja a minha segunda vida, meu pedaço inseparável enquanto não se conclui.

Um longo romance longe da flêuma da inspiração, de paixões. Construir o meu romance pedaço por pedaço. Pedaços de mim.