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Para um futuro próximo

Estou aqui na Feiarte espantando moscas e pensei que só me restava transformar o tédio em poesia. Olhando as pessoas a minha volta – não os amigos, mas os desconhecidos – comecei a pensar se é isso mesmo que quero para mim durante os anos. Cheguei a conclusão que não, que não quero passar não sei quanto tempo em feiras, faça frio ou calor, implorando com o olhar que alguém compre alguma coisa. Olhares curiosos tentando saber do que se trata o produto e passando para o próximo. Eu também faço isso em feiras, todos fazemos. Não estou falando aqui de humanização de vendedores, estou apenas fazendo uma análise pessoal da minha visão de dentro da barraca.

Demorei muito para admitir isso, mas hoje sei que quero viver de escrever. Quero ser escritora, mas não só publicar um livro para sanar uma vontade. Quero escrever para mexer com as pessoas, principalmente comigo mesma. Quero poder, nem que seja de vez em quando, provocar lágrimas nos leitores, transmitir emoções, raivas, polêmicas. Quero criar, mas não criar algo material, quero criar ideias, viver dessas ideias, respirá-las a todo instante. Quero passar longe do simplismo de compra e venda, lojinha, comércio. O capital puro e simples assim está me matando aos poucos, já não aguento mais.

Ser lida é apenas uma consequência. Reconhecimento também. Não estou em busca de reconhecimento, de dinheiro, de fama. Quero que alguém leia o que escrevi e reflita sobre isso. Não precisa saber quem disse, conhecer meu estilo, ficar decifrando meus enigmas. Quero viver de me expressar.

Não acho também que eu deva jogar fora o meu português simplesmente escrevendo qualquer porcaria para um jornal qualquer, sendo assessora de imprensa e defendendo o derrubamento das árvores só para ganhar uns trocados. Quero escrever textos nos quais eu acredite, com os quais eu possa ajudar pessoas, divulgar trabalhos interessantes, viver sem ter que abrir mão das minhas próprias verdades.

Tive muito medo de tentar isso antes, medo da minha falta de experiência, minha falta de idade, minha falta de definição de mim mesma. Fiquei rodando e rodando, buscando um algo que não se busca porque sempre esteve comigo: a vontade de falar o que penso.

Não é bem que eu não queria ser jornalista, não é bem que eu desisti de ser escritora, não é bem que eu quero ter uma lojinha e ficar todos os dias no mesmo lugar, não é bem que eu quero ter doutorado, não é bem que eu quero ser famosa. Estou refutando para que saibam quem eu sou, como se eu fosse apenas pensamento, palavras na tela do computador. Não preciso ter um nome, não preciso que saibam que sou eu, só quero que me leiam, desejo desesperadamente que me leiam.

Na minha essência, desde muito pequena, eu só queria isso. Quero aquela felicidade cheia de luz igual ao dia que minha professora fez com que a classe inteira realizasse uma leitura de um texto meu, de quando uma amiga pediu um poema para entregar para o namorado, quando escrevi uma carta para minha mãe e ela começou a chorar, quando me dizem sem querer que eu escrevo bem e eu não acredito, porque não precisa ser eu. É a sensação louca que se tem de não ser autor do próprio texto, como se ao eternizar os pensamentos eles me fugissem a autoria. Não, não escrevi isso, são apenas seus olhos.

Sei que existem barreiras, mas não penso no problema de atravessá-las. Não que eu esteja tendo um pensamento otimista, muito pelo contrário: eu não chego a pensar na dificuldade e já tenho preguiça de tentar. É mais fácil se deixar levar pelas oportunidades pequenas e não inventar novas oportunidades. É mais fácil digerir o que já está pronto – tentar ganhar dinheiro vendendo numa feira – do que criar algo novo todos os dias – viver da própria opinião.

Por onde começamos a viver da própria opinião? Escrevendo todos os dias ou vivendo da maneira que se escolhe? Buscando temas, estudando, se especializando ou sendo críticos a partir do que já sabemos? Quanto tempo estamos perdendo tentando aprender aquilo que não nos será útil? Apesar de saber que é preciso viver em equilíbrio confesso que ainda não encontrei qual é o ponto de equilíbrio.

Eu disse tudo isso para dizer apenas que começo a minha caminhada para ser cronista.

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