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Cabra Cega [06 e 07 de julho de 2011]

Ontem, 20h. Estava terminando o banho quando o vácuo engoliu minha realidade: acabou a luz. O corpo todo molhado, o frio de 5ºC do inverno de Curitiba e o nada. Tudo o que eu queria era me aquecer, me secar, encontrar as peças de roupa. A minha noção de espaço piora ainda mais no escuro, então esticava a mão a todo instante em busca da parede mais próxima e usava o tato para identificar as peças de roupa. No frio a situação corriqueira - sempre acompanhada de um bom aquecedor - tornou-se lenta e cinestésica.

Quando eu era pequena não gostava de ter os olhos vendados. Tinha certa aflição, não conseguia encontrar ninguém quando eu era a cabra cega. Me lembro bem de uma vez em que eu troquei todos os lados do meu próprio quarto enquanto procurava meus amigos, refiz todas as distâncias, a posição dos móveis, a incidência das luzes, tudo. Quando retirei a venda levei um susto porque os conceitos novos estavam tão fixos em minha mente que demorei um pouco até me acostumar com a realidade.

Já aquecida eu consegui ouvir o silêncio. O verdadeiro silêncio, o profundo e bom silêncio que deveríamos ouvir todos os dias mas o motor da geladeira sempre nos impede. No escuro e no silêncio me senti transferida a uma outra dimensão mesmo que por alguns minutos. Pensei na situação da falta de eletricidade: de um instante para outro tudo parou, a realidade foi transformada. Me vi obrigada a esperar com paciência, sentir o silêncio me invadindo, deixar o cabelo secar sozinho no frio, repensar a posição dos móveis, do meu corpo no quarto, as distâncias, os cuidados, passos em falso, surpresas no caminho.

1h da madrugada. A casa inteira se ilumina, aquela luz branca cortante e fulminante revela a realidade. Tudo estava igual, loucamente igual. Me senti religada à tomada, parece que agora posso continuar a viver normalmente. O problema é que estava tudo tão claro que meus olhos começaram a arder.

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