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Mostrando postagens de Agosto, 2011

[30 de agosto de 2011]

Hoje me conte sobre liberdade, sobre a sensação de estar sem pertencer, sem ter que se lembrar todos os dias para que vivemos, para que continuamos o caminho morno, caminho confuso de palavras que nos escapam além de nosso mero encanto, além dos dias e noites de sonhos que às vezes queremos agarrar, às vezes queremos esquecer de tão lindos, tão reais que sem querer nos acontecem, nos montam e desmontam feito joguetes sem destino, feito peças de um jogo que ninguém sabe jogar direito, ninguém sabe encaixar os detalhes na face desejada, na face que assumimos como sendo a verdadeira, como sendo a que nos convém quando as palavras nos transbordam, quando é impossível interromper a cadeia e colocar um ponto final

Pouco antes de dormir percebo a irrealidade.

[24 de agosto de 2011]

Num sopro
Liberdade
Só saber
Nada
A vida simples
Da mente ignorante
Como se vivesse ordem
Sem sentido
Desfoque no canto
Fim da linha vejo
Quanto mais é menos
Sonhos em negrito
Um grito negro
De olhos fechados
Infinito
Joga fora meu corpo
Envolve gelado desejo
De mergulhar
No cheiro de jasmim
Explodo-me sem direito
De pedir licença

[25 de agosto de 2011]

Basta um pingo, um suspiro, um piscar e pronto: percebi que tudo o que me parecia perfeito começa a desmoronar. Dentro de mim como um muro alto, as bases já acertadas, a cor da tinta já escolhida e a ilusão. De um passo a outro e o espaço se transforma. Não como a venda que cai, já que nada foi desvendado, apenas uma realidade que se transforma diante dos meus olhos para depois se desfazer como areia.

A expectativa é uma loucura, uma conclusão de antes de começar, o medo e a vontade numa só palavra. A expectativa é um esperar errado, um esperar demais de coisa alguma sem pensar nas surpresas no caminho. Ser dono do próprio destino dá trabalho porque comandar não significa prever. Tudo que é terrível fica no silêncio, o medo puro nas coisas que não dizemos. A dor de dizer é bem menor que a dor de guardar.

[15 de agosto de 2011]

Em frente o céu ia escurecendo, pelo retrovisor percebi que deixava a tarde alaranjada para trás. Senti o cheiro de tomate recém cortado, aquele calor em que a pele começa a grudar na roupa e percebi que começava a entardecer cada vez mais tarde, mesmo estando ainda em agosto. O cara gordo segurou firme sua mala carteiro enquanto corria afoito por entre os carros. Logo estava na calçada como mais alguém, sem a pressa de segundos antes. O sinal abriu e eu me esforcei para coordenar os pés por entre os pedais que tão bem conhecia, quase que um maniqueísmo forçado sobre como se deve dirigir. Eu sei, não pensar em estar seguro é estar seguro, já que se não há dúvida não há medo. Na rua reta tão conhecida, não haveria motivos para desconfiar da capacidade de seguir em frente, mas num óbvio rompante de vazio, o medo transforma-se em papel principal e o desejo é parar. Para a vida, chega da mentira de todos os dias, tapando um buraco oco que nos ocorre. Se medo não houvesse, eu seria um irre…

[12 de agosto de 2011]

O tubo da caneta é como uma lente. Giro-o e as gotas de tinta aumentam e diminuem, refratam. Puxo a ponta da caneta e ela termina antes do esperado, era menor do que eu imaginava. Letras grandes com pensamentos pontiagudos, indo para um dia quem sabe talvez a descoberta de mim por mim mesma num tropeço da minha própria falta de virtudes.

[12 de agosto de 2011]

Maravilhada, abriu o pacote e a tirou da caixa. Seus cachinhos amarelos, sua roupinha branca e alaranjada, o barulho de sino que às vezes fazia ao ser sacudida. De algum lugar ela haveria de soltar barulho, pensou se colocando no lugar da boneca que tinha em mãos. Quem sabe nas costas, logo acima da cintura, e lá estava a alavanca, a chave para a musiquinha misteriosa: era uma boneca boba de corda.

Sabe-se lá quantas voltas recebeu a boneca tonta e tal foi o encantamento da mulher quando as notinhas agudas de Für Elise começaram a tocar. Segurou-a na altura dos olhos, a mais ou menos meio metro do rosto, e fixou os olhos na bonequinha.

Movimentava a cabeça vagarosamente, numa volta infinita, seus cachinhos dourados, a pele alva. Seus olhos verdes brilhavam como se, enquanto a boneca ganhava vida, a mulher paralisava-se num encantamento reverso: a boneca era ela.

Numa alegria desajeitada, não sabia se a boneca em suas mãos era sua por direito. Às vezes gostava tanto que não sabia se me…

[10 de agosto de 2011]

Viver é um grande clichê e uma grande loucura. Todos sabem tudo, inclusive sabem que não sabem nada. Quietos, resignados, ninguém quer chorar seus problemas para quem não quer ouvir - mas, afinal, todos não querem ser ouvidos? Lembrados, reunidos, fotografados, reconhecidos, amados, plenos? Se caminhamos, se temos um objetivo, é natural que sejamos egoístas. Em algum momento querermos ser mais que o outro, queremos ser especiais, não é possível negar.

O reflexo é sempre difícil. Seus olhos no olhos, as verdades que contamos apenas para nós mesmos, uma montoeira de mentiras para o resto do mundo todos os dias. Estarei mentindo se eu disser que não sei mentir. Vou mentir hoje e amanhã e, para resumir a obra, mentirei eternamente enquanto você lê as minhas mentiras.

Entendo bem mas não entendo nada. Não nasci para entender, apenas para observar. Os caminhos deixados pela lesma nas calçadas. O céu, que mesmo negro, ainda guarda um resto de entardecer. As frestas da persiana, como se com g…

[07 de agosto de 2011]

A ansiedade de se descobrir inteira ao invés de pela metade. De se notar encaminhada e não sem destino - mesmo que o novo caminho seja incerto. O que poderei fazer para arrancar do meu peito a extrema energia, a vontade de correr, a euforia que carrego e que se manifesta nas horas mais impróprias? Pausar a vida e pular a espera, como num filme em VHS, chegar a um clímax sem expectativa - um prazer puro e sem causa, mas muito intenso. Pular a gravidez e ter já o filho, sem o trabalho e a dor, mas com a consciência de eu mãe, plena.

Às vezes me pergunto por que dá tanto trabalho viver. Se ao menos minha mente estacionasse em algum ponto - mas não estaciona. Minha angústia é saber que logo acontecerá algo que eu esperava mesmo sem saber exatamente o que esperar. É como se, num complexo de mim mesma, eu me buscasse desesperadamente atrás do espelho com o coração apertado.

A todo instante, como num mantra pessoal, penso que tudo vai dar certo. Tenho jogado fora um punhado de objetos e conv…

Grama Ana

Ana era um anagrama de si mesma. Às vezes mudava de lugar seus detalhes como quem esquece de fechar as janelas antes da chuva. Trabalhava miúda como vendedora de uma loja de sapatos, estava sempre com o rosto maquiado e os cabelos bem arrumados. Ia todos os dias àquela caixa fechada, ar condicionado ligado todo o tempo, não fazia frio nem calor, não chovia nem ventava. Seria maravilhoso se não fosse sempre.

Para quem passa, ali é o paraíso. O mundo de calçados inclinados, cores, saltos, poder, solados coloridos, canos altos, trançados, toc toc toc. Ana não fazia parte da estúpida parcela de pessoas que passavam com seus sapatos querendo mais sapatos. Enchia-lhe os olhos como uma foto, mas no fundo era ela um sapato apertado. Achava-se de beleza razoável, quando na escola fora escolhida Miss Ensino Médio num concurso qualquer, e desde então imaginou-se o centro das atenções do seu próprio mundo. Foi assim que percebeu que deveria ser vendedora.

A grama de Ana era motivo de inveja de mu…

[02 de agosto de 2011]

Gosto de apagar a lâmpada fluorescente e observa-la enquanto ela some na escuridão como uma pessoa que aos poucos vai adormecendo. Sem pressa, no mundo ela está ali para ser esquecida sem demora. De sol intenso ela vira lua, apenas como reflexo do que era, um satélite, uma lembrança boa que aos poucos se apaga de nossas memórias e se perde na escuridão.