Pular para o conteúdo principal

Grama Ana

Ana era um anagrama de si mesma. Às vezes mudava de lugar seus detalhes como quem esquece de fechar as janelas antes da chuva. Trabalhava miúda como vendedora de uma loja de sapatos, estava sempre com o rosto maquiado e os cabelos bem arrumados. Ia todos os dias àquela caixa fechada, ar condicionado ligado todo o tempo, não fazia frio nem calor, não chovia nem ventava. Seria maravilhoso se não fosse sempre.

Para quem passa, ali é o paraíso. O mundo de calçados inclinados, cores, saltos, poder, solados coloridos, canos altos, trançados, toc toc toc. Ana não fazia parte da estúpida parcela de pessoas que passavam com seus sapatos querendo mais sapatos. Enchia-lhe os olhos como uma foto, mas no fundo era ela um sapato apertado. Achava-se de beleza razoável, quando na escola fora escolhida Miss Ensino Médio num concurso qualquer, e desde então imaginou-se o centro das atenções do seu próprio mundo. Foi assim que percebeu que deveria ser vendedora.

A grama de Ana era motivo de inveja de muitas clientes mal embaladas. Duas ou três apareciam na loja de sapatos ao menos uma vez por semana só para observar Ana e sua simplicidade descida do salto. Tinha o asseio de quem estava saindo para tomar um sorvete, tamanha era sua liberdade. Sem perfume, com a camiseta insossa da loja, ligeiramente moderada e comum - mas, aos olhos da compradora compulsiva, Ana era o todo.

Imaginou, certa vez, Ana nua de seu papel de vendedora. Longe da temperatura condicionada, das luzes frias, da logo da loja, frases prontas, cartão dinheiro cheque, pilhas de caixas... e de salto. Ana sempre estava de salto em seus devaneios.

Era-se um sapato apertado como quem pede para não se esquecer dos pés. Lá no outro extremo do corpo, quem se importa com eles? Ana se importava. Pensava ela toda ser sapatos como quem envolve as bases frágeis da própria base. Literalmente vestida pelo contexto, não se importava com a cor e o modelo de sapato que era, assumindo a impossível missão de viver como uma obra terminada, sem ligar para os detalhes que mudavam de lugar.

Comentários