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Mostrando postagens de 2012

Revolução das Facas

Não sei para que tantos talheres se só usamos facas. Facas de todos os tipos, com ponta, afiadas, de serrinha, de manteiga, cabo de madeira, coloridas, de cerâmica, uma para cada ocasião, mesmo sem saber ao certo em qual ocasião usá-las. O espaço reservado para elas na gaveta fica sempre mais vazio do que o reservado para outras talheres, tão queridas que as facas são. Imagino a economia que seria no mundo se só usássemos facas nas refeições, facas para misturar açúcar, para bater ovos, facas para tomar sopa, comer feijão com arroz, uma revolução!
Não nos esqueçamos das facas que vão além da cozinha, nossas companheiras no escritório e na segurança. Facas para abrir cartas, estiletes para cortar papel, guilhotinas, tesouras, as tesouras! Tesouras nada mais são que duas facas trabalhando em conjunto, muita praticidade. Sem falar nos canivetes que nos ajudam a descascar aquela fruta recém colhida do pé, ou em alguma malandragem corriqueira, como roubar um produto no mercado. Como sobr…

Perdendo Presentes

Enquanto se reprimia de todas as verdades que havia se dito até agora, piscou três vezes e esqueceu o que realmente queria falar. Pensou no tempo de criança e em todos os presentes de natal que já desejou na vida, todas as bonecas, as roupas, livros, eletrônicos, namorados, ceias e jantares de um pouco antes. Talvez fosse hora de anotar em algum lugar os presentes que ia ganhando agora para que eles não se perdessem no tempo junto com o mundo de coisas que está reunindo, reunindo e jogando fora aos poucos, a boneca que chorava de bruços, o patins, a espera até meia-noite - isso que era bom, esperar até às 00h para então abrir os presentes, ter permissão para dormir tarde, apenas um gostinho das madrugadas sempre tão presentes em sua vida de agora.

Qualquer Rapaz

Compus uma música e gravei, será que presta? Alguns já dizem que sim.


Letra e música: Mylle Silva

QUALQUER RAPAZ

Não importa se você é alto ou baixo
Feio bonito ou burguês
Se é moreno loiro mulato
Polaco ou japonês
Se o meu santo bater com o seu
E você ser bom no que faz
Meu coração já está rendido porque
Eu me apaixono por qualquer rapaz

Quem sabe hoje eu tenha acordado
Com você na minha cabeça
Aproveite bem o reinado
Quem sabe você mereça
Mas se de repente eu te esqueci
Não se magoe porque é bem capaz
Do meu santo bater noutro canto
Sem ter olhado pra trás

Eu me apaixono por qualquer um que se mexa
E ainda faço queixa
Porque eu me apaixono demais
Não tenho culpa por ter um coração tão errante
E que num rompante
Me faz apaixonar por qualquer rapaz

Olhando para um pouco antes

Aquelas ruas com certeza estavam encardidas em seu DNA, tão encardidas que os anos em que passou de molho não foram suficientes para acabar com as manchas. Maravilhada, olhou a vista costumeira de outros tempos como se a distância entre ontem e hoje fosse mera questão de ponto de vista. E, pensando bem, era.
Em silêncio, foi sorvendo a verdade: ela gostava daquele lugar. Gostava de pensar nas calçadas esburacadas e cheias de mato nas quais caminhou quando criança para ir ao mercado. Amava as poças de lama que espirraram barro no seu vestido florido de menina. A valeta, ali ao lado da escolinha, na qual atirou a primeira carta de amor que recebeu.
A rua que ficava larga bem perto da sua casa, quantas vezes teria passado por ali? Inúmeras, em tantos horários, com tantos humores e pensamentos. Sem dúvida aquela é a rua na qual mais passou na vida. Às 18h em ponto o trem passou, trem de passageiros com destino ao Litoral, a buzina ensurdecedora no cruzamento, ele berra "estou passan…

Sobre cantar em público

Para uma pessoa tímida como eu, cantar é público é sempre um desafio. A questão para mim é muito mais emocional do que técnica, é a insegurança que me derruba quando me vejo numa situação em que sei que vou "amarelar". Vou, pela primeira vez, descrever o que me acontece pouco antes de cantar.

No sábado, dia 24/11/12,  aconteceu o 9º recital da Escola de Música Amusic, na qual ingressei há pouco mais de um mês. Quando cheguei ao local do evento e vi aquele barzinho cheio logo na entrada, meu coração já começou a disparar. A partir desse momento já não consegui relaxar.

Acredito que mais ou menos 45 minutos depois já era a minha vez de cantar. A Nara, minha professora e uma das donas da escola, me avisou que eu era a próxima e eu aí o resto do controle emocional se foi. Sem muito tempo para respirar e já era seria a minha vez, é agora!

Vou mentir agora se eu disser que me lembro claramente do momento em que estava cantando, porque simplesmente não me lembro. Tenho esse vídeo,…

Goiabosonho

Lina sempre foi translúcida de amor. Enquanto andava na rua, saboreando ser Lina, ouviu seu mote: goiabosonho. Ficava pensando quem teria dado um nome tão redondo ao sonho de goiaba da freguesia. Perguntava aos amigos se alguém já tinha experimentado o goiabosonho e que gosto tinha. Devia ser diferente dos outros, só podia!

Certa vez, numa manhã amena de primavera, decidiu que iria experimentar o goiabosonho. Mas, mesmo tendo esperado o dia inteiro com sua vasilha em mãos, o carro do sonho não passou na sua rua.

Fugidia

Estava na borda dos seus braços
Enquanto subia a escada
Nem pensava no corrimão
De tão rápido que foi
Paralisei as folhas que
Com o vento caíam no chão
Quando o carro passava depressa
Os feixes de luz por entre os galhos
Ali no final da João Negrão
Corri de volta para aqui
Como se corre a qualquer lugar
Ao grito forte do senão

1º Sarau Capivara – 13.11.2012

Estava eu lá, enterrada no canto de um sofá, caderno de textos na bolsa, enquanto os demais participantes preparavam o que recitar. Começando com Leminski – poeta homenageado da noite – e passando para o “modo livre”, com trabalhos próprios ou de outros autores, eu me entreguei ao silêncio atento. Vi vários Paulos, alguns mais românticos, outros autobiográficos, ou ainda os que buscavam inspiração – ou a razão para ela. E eu lá, com atenção delicada, como aquela menina loira que ficou levemente vermelha depois de misturar Deus e trepadas num mesmo poema.

E o meu caderno de textos continuou na bolsa. Logo eu que me vi na descrição do sarau, aquela pessoa cansada de apenas postar, postar e esperar a repercussão dos textos online, soltos nesse mundão enorme chamado internet e que ninguém parece ver.

Observando. Meu silêncio é uma forma de concentração. O não dizer é simples encontro, é um não sentir necessidade de palavras por certo tempo. Quis mesmo deixar as palavras para depois, reu…

Constatação

Na linha reta não havia mais subliminaridades, era o puro e simples encontro. Percebeu que estava andando em direção e não desviou o caminho. Era um rapaz aparentemente pouco disciplinado, mas com algumas conquistas na vida, como a de ser o melhor funcionário do mês três vezes consecutivas. Vejamos, calculou sem pressa, não estou apaixonada por ele, mas sou capaz de refazê-lo mentalmente com perfeição. Tem a sobrancelha esquerda falhada quase no final, suas bochechas redondas ficam muito vermelhas quando está ao sol, mesmo não tendo a pele tão clara assim. Suas mãos são um pouco maiores que as minhas, só que muito mais ásperas, tanto que até me assustei quando ele encostou no meu ombro pela primeira vez. As mãos dele sempre me dão um arrepio estranho, como se mesmo o carinho mais não fosse por inteiro.

Enquanto falava, observava os olhos semicerrados do cachorro que lhe lambia a mão com satisfação plena em retribuição aos carinhos que recebia na barriga.

O que eu mais gosto nele? Vo…

Casulo Sonho

Viver no sonho é apertado Por mais quentinho que seja Seguro é sonhar no escuro De quietinho, sussurrando Caia do céu, oh! meu desejo E sufocar as asas querendo nascer Encolhidas para dentro das costas Por que asas d’água não se vê? No sonho está tão bom Que é melhor esquecer de realizar Procrastinando e fingindo que não é mais Arquitetando desculpas infalíveis O casulo fica cada vez mais espesso
O sonho é o próprio fingimento
Ao rebentar do casulo há tudo feito Que, em síntese, é nada A explosão que tudo espalha Provoca o passo em meio ao pó Empurra, embala, tonteia Machuca, derruba, enlouquece Olho para o chão e o sonho estourado Me olha, de fora, feliz Por se ver livre de mim

Escorregadio

Na pior das hipóteses
Eu já varri o jardim
E a calçada está liberta
Sei que nessa falta de sombra
Sobra pouco para dizer
Que estive perto de te perder
De te perder de dentro de mim
O sol que entra na sala
Inunda a vizinha e a ânsia
De te saborear pouco a pouco
Em frases fartas que comemos
Hoje no café da manhã
Com aquele chá de cadeira
Um tempo depois, durante a tarde
Mas está bem
Já desmascarei o portão
Para você atravessar
E se ruim e idoso quiser voltar
Aceita a condição
De pisar nas pedras
Sem lhes tirar o sabão

Desde o estacionamento

Quando parei o carro, logo vi a mulher com cara séria falando no celular e um rapaz fardado analisando a maçaneta do carro. Estacionei atrás deles com receio, mas mesmo assim desci, não aconteceria nada de errado com o meu carro naquela rua. Era dia, perto das 18h, horário de verão, dia quente em Curitiba. A mulher estava inconformada “Eu sempre deixei o carro aqui e nunca tinha acontecido nada.” Sempre tem uma primeira vez, pensei de bate pronto, lembrando da vez em que eu estava no lugar dela, desesperada, chorando, agonizante e drama queen – minha especialidade.

Achei o prédio, entrei, falei com o porteiro. “Interfone estragado, quer subir ou ligar?” Sei lá, podia deixar as coisas ali na portaria mesmo, mas decidi subir, mesmo com aquele carro de vidro quebrado – se bem que o ladrão não voltaria tão cedo, eu acho. Décimo primeiro andar, entrei no elevador nem velho nem novo, como suspenso no tempo. No dia em que o ladrão quebrou o vidro do meu carro também havia um homem fardado …

Mãe árvore, menina flor

Quando a menina perdeu a sapatilha na sarjeta, a mãe deu um sorriso, pegou o sapato e calçou sua filha. Era um sábado à tarde, no começo da primavera, e as flores lilás pintavam a calçada de luz difusa. Não fazia calor, mas mesmo assim a rua estava cheia de carros cheios de gente, obrigando mãe e filha a atravessarem a rua correndo.

A menina também vestia lilás, como uma flor caída. De mãos dadas com a mãe, um elo inseparável. Um elo de mãos. As mãos como galhos que seguravam e protegiam a menina flor. As mãos que se buscam na dúvida, que se movem por trabalho, que se perdem tateando na escuridão. As mãos que começam um amor e já me alcançaram.

a poesia travessa / atravessa meu corpo / às avessas

Erros e mais erros

Algo tem me incomodado esses dias: como podem os erros de uma pessoa serem mais importantes do que suas qualidades? Parece que "erros e mais erros" é uma frase que li todos os dias da minha vida, como um mote, um forte aviso de que os dias não seriam fáceis - e a culpa não seria minha, mas da visão dos outros.

Nos anos que passei basicamente trancada entre casa e escola eu tinha muito medo do olhar dos outros. Ficava pensando o que pensariam sobre mim as pessoas, os amigos, professores, cadeiras, pedras... Enfim, tudo e todos. Com o passar do tempo achei que era só uma impressão boba, que ninguém precisa pensar algo sobre mim. Hoje entendo que eu não estava tão enganada.

Quando decidi dar minha cara à tapa de verdade, me expor verdadeiramente depois de muito tempo de negação, vejo que nada mudou e meu medo talvez não fosse tão infundado, apenas um medo de adolescente: aos olhos do mundo meus defeitos são mais importantes do que minhas qualidades.

Como uma criança, eu me a…

cama de sol

O menino deitou-se na cama cheirando a sol e dormiu imediatamente. Envolvido pelos raios que tocaram seus cobertores durante o dia, teve sonhos com um misto de perfume da luz com seu próprio cheiro - em outras palavras, um cheiro bom de si mesmo.

Quando acordou já era um homem, era seis horas da amanhã e estava nublado, tão nublado que as camadas de sol que o cobriam não o deixaram ir embora.

Guardou a alma de menino enquanto dobrava os cobertores e saiu para trabalhar.

meio dia inteiro

Quando acordou, pensou que aquele dia seria completamente seu, mas já era meio dia. Se fosse um pouco mais perspicaz teria levantado assim que seus dois despertadores tocaram ruidosamente, mas ela mal consegue lembrar de os ter desligado. Não era questão de ser perspicaz, talvez fosse só um costume e, como costume, não era bom nem mau. Olhou a lista de afazeres, aquela lista que ela guarda dentro de si porque se cansou de anotar em agendas, cadernos ou papéis que se espalham com o vento.

Sempre que escreve desata um pedaço de si e esquece de imediato o que queria fazer.

E afinal, quando é que temos um dia inteiro?

Tudo Menos Tristeza (ou Uma Declaração de Amor ao Contrário)

O que eu teria feito para receber palavras tão duras? Um misto de tontura, enjoo, dor de barriga, cansaço e tristeza tomaram conta de mim e eu queria pular fora do mundo. A dor no peito era pungente e cheguei a sentir dores no braço esquerdo.

As palavras foram tão duras que não as consigo lembrar, como se escritas em uma língua estranha. Da compreensão só veio a dureza e a ameaça ao amor.

Mesmo com dor só consigo amar.

Isolada do mundo, dentro do carro estacionado, tento compreender as palavras na língua estranha. Chamei o amor demais de culpa e por isso fui julgada. Quando amo muito, me quebra o coração deixar quem amo para trás. Deixar quem me dedica tempo e carinho. A essa tristeza específica atribuí o nome de culpa e recebi o julgamento: a incompreensão do meu eu mais profundo.

O lado esquerdo do meu peito realmente dói agora, mas não posso parar.

Tristeza de verdade é o que sinto nesse momento, mas erroneamente há de se julgar tristeza a entrega segura em seus braços, as reclamaç…

DIVULGAÇÃO! Cursos de extensão em Língua Inglesa no Celin

O Centro de Língua e Interculturalidade da Universidade Federal do Paraná (Celin PR) abriu três novos cursos para o segundo semestre de 2012:

Conversação Pré-Intermediário
Terças-feiras, das 14h30 às 17h20

Creative Writing
Terças-feiras, das 19h às 21h30

Business English (Upper-Intermediate)
Terças e Quintas, das 18h30 às 20h10

Quem estiver interessado, favor entrar em contato para mais informações através do telefone (41) 3254-8715 ou pelo site http://www.celin.ufpr.br/.

Segue abaixo os cartazes dos três cursos:




Eutanásia em cães - O último dia de vida

Qualquer assunto que envolva a vida de alguém especial é delicado, mas não posso deixar de escrever num momento como este. Estamos tão longe de certas situações, nossas mentes se afastam tanto de possibilidades horríveis - até porque não seria possível viver se pensássemos constantemente na morte ou no fim de tudo e todos que amamos -, só que é preciso refletir quando nos acontece.

Um cão, assim como qualquer outro animal de estimação, é um companheiro para a vida, com o qual partilhamos emoções, sentimentos e aprendemos muito a amar e respeitar como são. Suas particularidades, defeitos e qualidades que fazem dele um ser único que está sempre por perto e faz parte de tudo o que somos. Perder um amigo assim não é fácil.

Não é fácil mas está acontecendo agora.

Tobi é um labrador muito bonzinho que mora na casa do meu namorado. Mesmo com seus 9 anos de vida, tem pique de moleque cada vez que vê alguém da família ou quando sai para passear. É um cachorro sempre alegre, brincalhão, forte …

Intimidade na madrugada

[2012.08.02]

Não, não podia ser a mesma coisa - até porque não era. O silêncio e a calma da madrugada, só eu e o papel, sem nenhuma ameaça de que o sistema poderia falhar e a imaginação virar pó. Pense bem, não é a mesma coisa poder pegar o caderno e tê-lo perto do rosto, escrever na posição que lhe é mais confortável, sem a luz direta nos olhos e realizar fluxos de pensamento até quebrar a ponta da lapiseira, e quebrar mais uma vez. Escrever assim é um ato de amor, uma necessidade vital, mesmo que a ninguém alcance, não há como não se entregar ao prazer da carne, agarrar, segurar, fazer surgir letras com as mãos que seguram e não apenas tocam teclas. Não, não é mesmo igual.

Começar um livro, de verdade - quantas vezes já me disse que começaria um livro de verdade? - melhor começar logo um livro de verdade, antes de pensar nas desculpas todas que criei, desde minha pouca idade até a falta de capacidade, melhor que seja um livro todo. Mas como fazer um livro todo se sou-me assim aos pe…

Brigas de Longe

O vento batia nas telhas de eternit e anunciava que os dias mais quentes do inverno de Curitiba estavam por acabar. Depois do frio intenso e de uma quase neve - ao menos no desejo popular - no dia dos 37 anos da última nevasca na terra das araucárias, voltar para o frio era quase um tabu entre a população. Mas não havia jeito além de se conformar com as eternas mudanças climáticas da capital e ouvir a voz do vento forte que trazia as boas novas de uma frente fria.

No início da madrugada ainda havia uma esperança: era possível ficar tranquilamente na frente do computador com apenas uma blusa de lã, sem ter que recorrer a cobertores e outros artifícios para se aquecer. Enquanto as horas passavam, amenas, tanto no clima quanto na ocupação, os gritos e a briga de antes iam ficando em algum lugar do passado.

Existe um limiar quase que invisível nos relacionamentos entre duas pessoas - quaisquer relacionamentos. Visivelmente invisível, por assim dizer, que impede boa parte da população de s…

Para cair da cama

Como se começa um romance? Pensou assim desmedida. Como se começa algo para então dar forma, conviver por anos e concluir um dia? Como fazer do próprio parto um objeto de paixão? Dos livros que mais gostou, os mais marcantes, todos eram simples, com inícios mais simples ainda. Palavras que qualquer um poderia usar em qualquer ocasião, transbordava a realidade daquelas páginas. Sabia que teria que ser simples igual ou seria nada.

Tão constante que se tornou natural. Enquanto sonha, pensa que aquela história seria um ótimo romance. Certa vez sonhou que anotava a ideia para não perde-la entre o devaneio e a realidade, mas assim que acordou tudo parece se desfazer e da brilhante ideia resta apenas uma vaga lembrança de como foi.

Precisa é ser simples, tão simples que se torne complexa aos olhos do mundo. Ou ao menos simples o suficiente para parecer simples.

Nem tudo é como se ouve

Era uma moça pequena, loira, rosto miúdo e olheiras profundas. Pelo telefone a imaginei uma gorda simpática - não que magros sejam antipáticos -, daquelas sempre sorridentes e maquiagem no rosto. A voz dela se encaixava bem ao meu devaneio. Dificilmente imagino a feição das pessoas pela voz, ao menos não com tanta força quanto imaginei a dessa moça. Às vezes penso "acabei de falar com um homem de voz linda, ele deve ser bonito", da mesma forma que as mulheres se iludem com as vozes dos radialistas - que normalmente são carecas e barrigudos.

Outro dia, depois de ouvir repetidas vezes as músicas da cantora KT Tunstall e ser informada de todas as suas qualidades como musicista, a imaginei uma tremenda de uma loira peituda, com uma cara sexy e um charme sedutor. Não seria nada mal para uma guitarrista com vozeirão de roqueira, certo? Qual foi minha decepção ao ver que ela é uma morena com rostinho bonito, quase infantil? Fui enganada pelos meus ouvidos.

Tenho certa facilidade pa…

Com a fome e a vontade de comer

Convenhamos, mudança não é fácil. Tem que empacotar tudo, jogar várias coisas fora, ver se tudo o que temos vai realmente caber no novo espaço, prever que alguns de nossos pertences preferidos podem se quebrar, evitar que o cachorro caia do caminhão de mudança... Tantos detalhes que tornam a tarefa exaustiva e até indesejada.

Mudança de verdade não combina com planejamento, afinal mudar significa entrar num ambiente totalmente novo, tornando praticamente impossível prever os resultados. Pior ainda quando a mudança é com a gente, lá no fundo da alma, repensando caminhos e ações, atém pintar aquele arrependimento por não ter feito algo lá atrás, uma história que, se tivesse sido escrita no momento certo, faria toda a diferença no presente.

Quando me formei em jornalismo, em 2007, tinha plena convicção de que não era jornalista e que o diploma seria apenas mais um papel para esconder no fundo de um caixa qualquer. Durante a faculdade uma série de fatores me fez desistir por completo da p…

O medo de longe

[30 de abril de 2012]

Fiquei quase sete meses sem dirigir e há uma semana voltei a pegar no volante. Pouco antes de viajar eu tive uma crise de pânico e nunca mais consegui dirigir da mesma maneira: o medo tirou toda a alegria e a automaticidade do ato de dirigir para mim.

O medo do que não posso ver direito. Sempre tive muito medo do desconhecido apesar de viver brincando com ele. No entanto, agora o medo é material - por mais estranho que isso possa soar -, o meu medo de dirigir é material. Tenho medo porque não enxergo.

Se já não é mais natural para mim dirigir depois de 8 anos de carteira de motorista, estou reaprendendo meus limites. Me sinto como se tivesse acabado de sair da autoescola, como que descobrindo o maquinário de um carro. Me movimento aos poucos, um passo de cada vez.

Quando não enxergo não posso mais ir. Antes eu não tivesse sentido o medo, então tudo estaria resolvido. Fujo do medo como quem foge de olhos fechados, pois não sou capaz de ver o que está além do medo.…

Quando o amor não cabe mais na mesma terra

Quem me dera
Ter todos que amo
Num mesmo espaço
Na mesma terra
A poucos metros de distância

Quem me dera
Poder reunir todos os amigos
Todos que foram bons comigo
Na mesma cidade
No mesmo tempo
E nos mesmos sorrisos

Quem me dera
Poder abraçar todos
Sempre que tivesse vontade
E fazer o bem querer
Atravessar as barreiras do espaço
Sem mar nem terra nem nada

Quem me dera
Não ter me dividido tanto
Picotado minha vida
Para não precisar amar de longe
Amar platônico
Amar lembranças

Quem me dera
Mas agora é tarde demais
O amor é o instante-já
Te digo agora ou nunca mais
Por isso, se eu não ver meu amigo amanhã
Espero que ele tenha entendido o quanto o amo.

[2012.03.24]

よりみち いち (Yorimichi I)

[2011.12.23] 

I was all alone going back to my room around midnight. The stars were bright and it was very, very cold. Almost Xmas, the winter coming and, for some reason, I wasn't mad being outside in such a weather. It was as if I could walk all night long, just enjoying the way, the lights, the fog and the cold wind.

There are some images that I want to care all my life and I want to tell you about them. They are my treasure, the real thing that keeps me walking day after day.

Five minute before, everybody was going back home, saying goodbye. That was the last time I saw some of them this year, but everybody were laughing, plying, joking and so on. I was very happy just for being there, sometimes understanding half, sometimes understanding more.

There are two things in life that we can not forsee: the bound with people and the last time you see a person. We can never know exactly the last time you see someone. Life has too many ways to happen and we can't prevent the last t…

IV Concurso de Composição Leoni - Minha Participação

Estou participando do IV Concurso de Composição realizado pelo artista Leoni. Cada participante deve fazer uma letra para a música fornecida, de acordo com a melodia, e enviar um vídeo. Já me inscrevi faz tempo, mas como em breve começarão as votações, decidi divulgar um pouco.

Quem gostar por favor compartilhe, curta, etc etc.



Insônia

De vez em quando as paredes
Parecem caçoar de mim
Na madrugada que não passa não
Essa lembrança não tem fim

E assim me olho no espelho
Entre dormir e acordar, sei lá
Na boca o amargo da manhã de frio
Sem você pra me adoçar

Quando paro no sinal
Penso não seria mal
Nossa foto na parede
Eu de branco, cê de verde
Se eu pegasse o telefone
Na agenda tem seu nome
Te diria que é bem capaz
De eu te querer ainda mais

Cada vez mais
Muito mas muito mais

E quase que sem perceber
Ouvi sua voz no gravador de som
Se eu chamasse logo, vem aqui
Talvez fosse muito bom

Quando paro no sinal
Penso não seria mal
Nossa foto na parede
Eu de branco, cê de verde
Se eu pegasse o te…

As pessoas corajosas na internet

Passei muito tempo escondendo o rosto enquanto escrevia, naturalmente por causa da timidez. Mas, de uns tempos pra cá, decidi me mostrar um pouco mais e comecei a assumir o eu ao invés de esconder o que estava fazendo. Apesar de adorar escrever na internet, muitas vezes esconder-se atrás de um outro nome ou se deixar bem escondido é uma saída: um apelido, um eu fictício, um ser virtual.

Escritores fazem isso desde o início dos tempos, assim como muitos outros artistas que usam pseudônimos ao invés de seus nomes do cartório. Eu mesma o faço. Mas o que quero dizer é que, a partir do momento que você se mostra como uma pessoa, com rosto, falando, se movendo, a recepção do que é dito se torna diferente. Afinal, é um ser humano, não um amontoado de material virtual.

Assim, ao mesmo tempo que pessoas com boas ideias se aproximam, outras que não tem nada melhor para fazer além de criticar também aparecem. A internet é um ótimo lugar para trocar ideias e se expressar, sem dúvida, mas muitos a…

Editora Simplíssimo E-books - A Decepção

Em agosto de 2011 ficou pronto o meu primeiro e-book. Desde pequena eu sentia vontade de ter um livro e, como no momento não posso ter um livro em papel, optei pela versão digital mesmo. Me lembro ainda que, durante o processo de editoração do livro, a editora Simplíssimo havia acabado de oferecer também o serviço de venda de livros nos sites da Livraria Saraiva e da LivrariaCultura.

Pois bem, ontem recebi o seguinte email:

A partir deste mês, estamos suspendendo as vendas dos ebooks produzidos para autores, pela Simplíssimo. Infelizmente os resultados que obtivemos com vendas ficaram abaixo das nossas expectativas. 
Triste.

Sei bem que estou longe de ser uma ótima escritora, sucesso de vendas, que o meu livro está cheio de erros de digitação, mas informar que os livros não serão mais comercializados da noite pro dia é uma falta de respeito, não acham? Veja só, a Simplíssimo é uma editora, o que as editoras normalmente fazem? Propaganda dos livros à venda. Pelo menos as editoras que ta…

Morar-se sozinho num país distante

[27 de fevereiro de 2012]

Com menos de um mês para o fim da reclusão, posso enxergar o que antes eu era incapaz de ver. O que quero dizer é que percebo o que minha percepção antes não percebia, seja no cotidiano ou sobre mim mesma. Morar sozinha num país distante, muito longe de tudo o que você julga real e verdadeiro é como um caminho sem volta, a triste realidade: sua vida nunca mais será a mesma.

Eu sempre soube disso. Mesmo antes de partir, eu já o sabia.

Meu último encontro comigo mesma antes de sair do Brasil foi na despedida do aeroporto. A partir do momento que me vi atravessando o portão de embarque, eu e uma mochila nas costas, senti que só podia continuar a caminhada e nada mais poderia ser feito. As pessoas foram ficando menores até sumir.

Fazer novos amigos, conhecer lugares, passear, estudar, comprar coisas novas. Tudo muito óbvio e superficial. Me pergunto quantos conseguem descobrir-se profundamente morando-se sozinho.

Sim, morando-se. Eu me moro aqui, solitária, nesse…

Quando eu escrevi de frente para o mar

[28 de dezembro de 2011]

Três meses se passaram, para mim metade do caminho. Já deu tempo de muita coisa estando-se assim sozinha. Cansei e andar, perdi as malas, passei mal, aprendi a cozinhar, realizei um sonho, chorei de saudade, chorei de vontade, lavei roupas, vi e fotografei, amei ao som do jazz, sorri para estranhos, fui mal interpretada, briguei, aprendi muito e muito pouco, senti frio, enfrentei o medo, me perdi, usei três idiomas na mesma frase, madruguei, passei mais frio, passei o natal longe de casa, troquei a escova de dentes, quis apertar todos os bebês que vi, perguntei como chegar do outro lado, me virei do avesso, venci a preguiça e cheguei na praia.

Eu não conhecia a praia, salvo a vez que fui quando tinha sete anos, mas não tenho lembranças claras do meu primeiro contato com o mar, apenas a vertigem e o medo de ser engolida pela água.

No Brasil é verão, as praias devem estar lotadas, muito calor e pouco espaço. Enquanto isso eu aqui numa praia japonesa em Chiba, um…

Eu não sou Myllena mais

Um dos elementos mais enraizados do nosso ser é o nome. Se você estiver no meio de uma multidão e ouvir seu próprio nome, vai entrar em estado de alerta. O nome, o indicativo do eu, o que define o sujeito dentro do sujeito eu.

Ao escrever o título do post, fui incapaz de iniciar meu nome com letra minúscula. Incapaz. Ver meu nome sem o M maiúsculo foi como me ver minúscula e não sendo eu. Era outra myllena, uma myllena menor que não eu.

Olhar meu próprio nome escrito é como me olhar no espelho. A forte identificação, ligação certa, indestrutível, única, maternal, meu segundo cordão umbilical. Meu nome é o contato com meu eu mais lá de dentro, aquele que nunca conhecerei mas sei que existe, porque essa sou eu e me identifico.

Meu nome é como cantar junto com minha voz gravada, o mesmo timbre, as mesmas notas, o mesmo jeito, mesmos erros, o encontro perfeito e completo.

Mas o nome é tão automático, tão simples e tão usado que o ignoramos. Pense agora, é possível passar um dia sem ouvir …

[13 de janeiro de 2012]

Eu, como se fosse hoje e assim
Ia te querer se pudesse de perto
Criar entre o sono e a desventura
Tudo que se pode e que se esquece
Somos assim frágeis
Como se no amor fosse quebranto
Já estão mortos os donos das palavras que leio
mas vivem comigo, preto no branco
No quase sono palpita
Um amor por entre tudo que for efêmero
E solitário

Teaser do livro "Devaneios de Amor e Um Vintém"

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Baixe o e-book "Devaneios de Amor e Um Vintém" por apenas um tweet

A realização de um sonho é sempre muito bonita. Em agosto de 2011 publiquei meu primeiro livro, "Devaneios de Amor e Um Vintém" em formato digital (epub), com alguns contos e crônicas que escrevi entre 2007 e 2010. Agora, em 2012, decidi compartilhar com você esse sonho, disponibilizando o download do livro de graça! Tudo que você precisa fazer é clicar no botão Pay with a Tweet or Facebook, compartilhar o link e pronto! Assim que tweetar ou compartilhar no Facebook, você receberá um link para download do e-book.

Confira abaixo um trecho do conto "A Sala de Banho":

O barulho das sirenes se aproximando fez com que Claudia não pensasse duas vezes em subir, pelas escadas mesmo, até o terraço. Ela tinha a impressão de que quanto mais ela subia mais o barulho aumentava, assim como a freqüência das batidas de seu coração. Teve medo, muito medo do desconhecido futuro que estava prestes a encarar. “Tenho medo de quanto tempo durarei como palavra. Reconheço que minha vida …