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Morar-se sozinho num país distante

[27 de fevereiro de 2012]

Com menos de um mês para o fim da reclusão, posso enxergar o que antes eu era incapaz de ver. O que quero dizer é que percebo o que minha percepção antes não percebia, seja no cotidiano ou sobre mim mesma. Morar sozinha num país distante, muito longe de tudo o que você julga real e verdadeiro é como um caminho sem volta, a triste realidade: sua vida nunca mais será a mesma.

Eu sempre soube disso. Mesmo antes de partir, eu já o sabia.

Meu último encontro comigo mesma antes de sair do Brasil foi na despedida do aeroporto. A partir do momento que me vi atravessando o portão de embarque, eu e uma mochila nas costas, senti que só podia continuar a caminhada e nada mais poderia ser feito. As pessoas foram ficando menores até sumir.

Fazer novos amigos, conhecer lugares, passear, estudar, comprar coisas novas. Tudo muito óbvio e superficial. Me pergunto quantos conseguem descobrir-se profundamente morando-se sozinho.

Sim, morando-se. Eu me moro aqui, solitária, nesse corpo que carreguei comigo sempre.

Fui sempre atraída pelos detalhes e por tudo que aprendi através deles, mas não tenho dúvida que os detalhes te ensinam ainda mais quando está longe da sua zona de conforto.

Do cotidiano, meu olhar que sabia apenas o que era um detergente de louças, agora percebe também panelas, raladores, odorizadores, amaciantes, tira-manchas, vassouras, limpadores...

De mim mesma, sabia apenas a negação, uma saída provisória sem sentido. A negação é o medo de assumir o que se é, assim fica mais fácil se proteger do mundo. Se esconder é mais fácil do que se arriscar.

De tudo que fui, de tudo o que era, sei apenas aquilo que não quero mais ser.

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