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Quando eu escrevi de frente para o mar

[28 de dezembro de 2011]

Três meses se passaram, para mim metade do caminho. Já deu tempo de muita coisa estando-se assim sozinha. Cansei e andar, perdi as malas, passei mal, aprendi a cozinhar, realizei um sonho, chorei de saudade, chorei de vontade, lavei roupas, vi e fotografei, amei ao som do jazz, sorri para estranhos, fui mal interpretada, briguei, aprendi muito e muito pouco, senti frio, enfrentei o medo, me perdi, usei três idiomas na mesma frase, madruguei, passei mais frio, passei o natal longe de casa, troquei a escova de dentes, quis apertar todos os bebês que vi, perguntei como chegar do outro lado, me virei do avesso, venci a preguiça e cheguei na praia.

Eu não conhecia a praia, salvo a vez que fui quando tinha sete anos, mas não tenho lembranças claras do meu primeiro contato com o mar, apenas a vertigem e o medo de ser engolida pela água.

No Brasil é verão, as praias devem estar lotadas, muito calor e pouco espaço. Enquanto isso eu aqui numa praia japonesa em Chiba, um vento tão gelado que quase me impede de escrever, uma praia deserta com gatos de rabos cortados morando entre as pedras, areia escura e pedaços de madeira pelos cantos. Um grupo de patos há uns 100 metros daqui se divertindo na água, as ondas quebrando sem ritmo.

Cheguei, sentei numa pedra e comi um pocky. Nenhum sinal de pessoas, como se a humanidade houvesse sido tragada no tempo. Olhando assim, um mundo de água até a linha do horizonte, é como se o mar estivesse prestes a me engolir para me cuspir em algum desses tons de azul do céu para trabalhar como desenhista de nuvens ralas.

Minhas botas sujas vão se enterrando na areia, criando raízes. Só o vento bate, tenta fechar o caderno e congela minhas mãos mostrando que talvez eu devesse ir embora.

 

Comentários

Anônimo disse…
Esse som das ondas me faria pensar o quão longe eu estaria de casa. Realmente viajar para o Japão seria inesquecível. Aproveite!

BRscoutboy - From Youtube*