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O medo de longe

[30 de abril de 2012]

Fiquei quase sete meses sem dirigir e há uma semana voltei a pegar no volante. Pouco antes de viajar eu tive uma crise de pânico e nunca mais consegui dirigir da mesma maneira: o medo tirou toda a alegria e a automaticidade do ato de dirigir para mim.

O medo do que não posso ver direito. Sempre tive muito medo do desconhecido apesar de viver brincando com ele. No entanto, agora o medo é material - por mais estranho que isso possa soar -, o meu medo de dirigir é material. Tenho medo porque não enxergo.

Se já não é mais natural para mim dirigir depois de 8 anos de carteira de motorista, estou reaprendendo meus limites. Me sinto como se tivesse acabado de sair da autoescola, como que descobrindo o maquinário de um carro. Me movimento aos poucos, um passo de cada vez.

Quando não enxergo não posso mais ir. Antes eu não tivesse sentido o medo, então tudo estaria resolvido. Fujo do medo como quem foge de olhos fechados, pois não sou capaz de ver o que está além do medo. Chego até a ter medo de ter medo e assim quero parar o carro a todo custo, não com pânico, mas com pausa: meu corpo não aceita mais ir para frente.

Não consigo mais focar o olhar para frente, para o infinito. É uma tortura, porque tudo está embasado e acelerar um pouco mais significa ir mais rápido a um lugar que mal consigo ver.

E assim me vejo com a sede louca de enxergar o que me espera. Enquanto anoitece e eu não tenho óculos, preciso adentrar, um passo de cada vez, nos espaços repletos de medo de longe.


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