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Com a fome e a vontade de comer

Convenhamos, mudança não é fácil. Tem que empacotar tudo, jogar várias coisas fora, ver se tudo o que temos vai realmente caber no novo espaço, prever que alguns de nossos pertences preferidos podem se quebrar, evitar que o cachorro caia do caminhão de mudança... Tantos detalhes que tornam a tarefa exaustiva e até indesejada.

Mudança de verdade não combina com planejamento, afinal mudar significa entrar num ambiente totalmente novo, tornando praticamente impossível prever os resultados. Pior ainda quando a mudança é com a gente, lá no fundo da alma, repensando caminhos e ações, atém pintar aquele arrependimento por não ter feito algo lá atrás, uma história que, se tivesse sido escrita no momento certo, faria toda a diferença no presente.

Quando me formei em jornalismo, em 2007, tinha plena convicção de que não era jornalista e que o diploma seria apenas mais um papel para esconder no fundo de um caixa qualquer. Durante a faculdade uma série de fatores me fez desistir por completo da profissão e, como eu não conhecia uma única alma que me convencesse do contrário, ficou por isso mesmo.

Com o passar dos anos, já distante da realidade acadêmica de jornalismo e tendo preenchido alguma lacunas que a graduação não me permitira, a vontade começou a voltar vagarosamente. Ou melhor, a fome.

Chamo de fome tudo aquilo que nos leva a levantar da cama todas as manhãs para viver a vida. Enquanto estudante de jornalismo, a minha fome primária eram contas a pagar e dinheiro para sobreviver, basicamente. Não houve um tempo, uma lacuna, para que eu pudesse pensar com mais calma sobre o que eu queria num futuro. Além disso, não achava justo misturar a arte da (escrita sagrada, na minha cabeça) com o dinheiro (profano). Foi assim que declarei que "se nada der certo, viro jornalista".

Mas quando o dinheiro já não é mais o grande vilão da história e a mente está mais aberta e amadurecida, o que fazer com a fome de antes? A fome de escrever, comunicar, passar o que vejo para frente, etc? Os grandes obstáculos do passado são meras pedrinhas no caminho de hoje e a fome só aumenta quando a vida está demasiado fácil.

Por isso mudar não é fácil, ainda mais quando mudar o passado é impossível. Enquanto encaixoto, jogo muita coisa fora e penso como arrumar meu novo espaço interno, venho com a fome e a vontade de comer para a mudança que em breve estará finalizada. Lamentar o passado e se acomodar por conta disso não matará a minha fome.

Já sei bem como acabar com a minha grande fome. E você, já descobriu como matar a sua?

[2012.05.18]

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