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Nem tudo é como se ouve

Era uma moça pequena, loira, rosto miúdo e olheiras profundas. Pelo telefone a imaginei uma gorda simpática - não que magros sejam antipáticos -, daquelas sempre sorridentes e maquiagem no rosto. A voz dela se encaixava bem ao meu devaneio. Dificilmente imagino a feição das pessoas pela voz, ao menos não com tanta força quanto imaginei a dessa moça. Às vezes penso "acabei de falar com um homem de voz linda, ele deve ser bonito", da mesma forma que as mulheres se iludem com as vozes dos radialistas - que normalmente são carecas e barrigudos.

Outro dia, depois de ouvir repetidas vezes as músicas da cantora KT Tunstall e ser informada de todas as suas qualidades como musicista, a imaginei uma tremenda de uma loira peituda, com uma cara sexy e um charme sedutor. Não seria nada mal para uma guitarrista com vozeirão de roqueira, certo? Qual foi minha decepção ao ver que ela é uma morena com rostinho bonito, quase infantil? Fui enganada pelos meus ouvidos.

Tenho certa facilidade para identificar vozes, mesmo ao telefone, exceto se as vozes forem muito parecidas. Posso associar a voz a um rosto mas, por um defeito qualquer no meu cérebro, não consigo lembrar os nomes.  Há tantos detalhes sobre uma pessoa, tantas nuances, tantas facetas, por que temos que nos lembrar dos nomes? Nomes são genéricos, iguais, escolhem pra gente, assinam um papel, e assim nos chamam enquanto crescemos e nos assumimos como eu, [coloque seu nome aqui].

Por isso nascem os apelidos, igualmente genéricos mas bem pessoais, já que é através deles que nos sentimos identificados dentro de um grupo. Aquele apelido pelo qual só a nossa mãe nos chama, o apelidinho de namorados, o apelido entre os amigos, os apelidos que damos àqueles de quem não gostamos muito, apelidos para animais de estimação, apelidos para objetos...

Logo eu, tão ligada às palavras, vivo ignorando os nomes e gravando as pessoas que encontro pelas impressões que me passam suas vozes e seus trejeitos. Talvez ligar um nome a uma pessoa seja uma relação lógica por demais dentro da minha mente imaginativa.

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