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Brigas de Longe

O vento batia nas telhas de eternit e anunciava que os dias mais quentes do inverno de Curitiba estavam por acabar. Depois do frio intenso e de uma quase neve - ao menos no desejo popular - no dia dos 37 anos da última nevasca na terra das araucárias, voltar para o frio era quase um tabu entre a população. Mas não havia jeito além de se conformar com as eternas mudanças climáticas da capital e ouvir a voz do vento forte que trazia as boas novas de uma frente fria.

No início da madrugada ainda havia uma esperança: era possível ficar tranquilamente na frente do computador com apenas uma blusa de lã, sem ter que recorrer a cobertores e outros artifícios para se aquecer. Enquanto as horas passavam, amenas, tanto no clima quanto na ocupação, os gritos e a briga de antes iam ficando em algum lugar do passado.

Existe um limiar quase que invisível nos relacionamentos entre duas pessoas - quaisquer relacionamentos. Visivelmente invisível, por assim dizer, que impede boa parte da população de se meter na vida alheia sem ser chamado, mas que instiga qualquer um a dar conselhos sem saber metade da história. O conselheiro sempre parece lépido, incrivelmente correto enquanto desanda a falar sobre como seu ponto de vista é o melhor de todos. Enquanto discursa, é quase impossível discordar, não por educação, mas por encantamento do aconselhado que está mais para lá do que para cá.

Em um choro quase convulsivo, a criança pedia para que ela parasse de lhe dar chineladas. A mãe, braço erguido em riste, disse que a menina não a obedecia - quero ir com meu avó!, suplicava. O pai ia longe, sabe-se lá onde, talvez vivendo sua própria vida de divorciado, quem sabe cego sobre como estava sua filha naquele momento.

O impulso era interferir, o som vazava, casas germinadas, mas ficou assim, meio que sem saber o que fazer? A mãe parecia doente, tossia forte, ou seria apenas uma reação momentânea? É claro, crianças sempre choram, mães sempre brigam, e a vida é de cada um para ser vivida, sem interferências.

Na força do hábito, quando silenciou, a paz era imediatamente a mesma de antes.

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