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Mostrando postagens de Novembro, 2012

Olhando para um pouco antes

Aquelas ruas com certeza estavam encardidas em seu DNA, tão encardidas que os anos em que passou de molho não foram suficientes para acabar com as manchas. Maravilhada, olhou a vista costumeira de outros tempos como se a distância entre ontem e hoje fosse mera questão de ponto de vista. E, pensando bem, era.
Em silêncio, foi sorvendo a verdade: ela gostava daquele lugar. Gostava de pensar nas calçadas esburacadas e cheias de mato nas quais caminhou quando criança para ir ao mercado. Amava as poças de lama que espirraram barro no seu vestido florido de menina. A valeta, ali ao lado da escolinha, na qual atirou a primeira carta de amor que recebeu.
A rua que ficava larga bem perto da sua casa, quantas vezes teria passado por ali? Inúmeras, em tantos horários, com tantos humores e pensamentos. Sem dúvida aquela é a rua na qual mais passou na vida. Às 18h em ponto o trem passou, trem de passageiros com destino ao Litoral, a buzina ensurdecedora no cruzamento, ele berra "estou passan…

Sobre cantar em público

Para uma pessoa tímida como eu, cantar é público é sempre um desafio. A questão para mim é muito mais emocional do que técnica, é a insegurança que me derruba quando me vejo numa situação em que sei que vou "amarelar". Vou, pela primeira vez, descrever o que me acontece pouco antes de cantar.

No sábado, dia 24/11/12,  aconteceu o 9º recital da Escola de Música Amusic, na qual ingressei há pouco mais de um mês. Quando cheguei ao local do evento e vi aquele barzinho cheio logo na entrada, meu coração já começou a disparar. A partir desse momento já não consegui relaxar.

Acredito que mais ou menos 45 minutos depois já era a minha vez de cantar. A Nara, minha professora e uma das donas da escola, me avisou que eu era a próxima e eu aí o resto do controle emocional se foi. Sem muito tempo para respirar e já era seria a minha vez, é agora!

Vou mentir agora se eu disser que me lembro claramente do momento em que estava cantando, porque simplesmente não me lembro. Tenho esse vídeo,…

Goiabosonho

Lina sempre foi translúcida de amor. Enquanto andava na rua, saboreando ser Lina, ouviu seu mote: goiabosonho. Ficava pensando quem teria dado um nome tão redondo ao sonho de goiaba da freguesia. Perguntava aos amigos se alguém já tinha experimentado o goiabosonho e que gosto tinha. Devia ser diferente dos outros, só podia!

Certa vez, numa manhã amena de primavera, decidiu que iria experimentar o goiabosonho. Mas, mesmo tendo esperado o dia inteiro com sua vasilha em mãos, o carro do sonho não passou na sua rua.

Fugidia

Estava na borda dos seus braços
Enquanto subia a escada
Nem pensava no corrimão
De tão rápido que foi
Paralisei as folhas que
Com o vento caíam no chão
Quando o carro passava depressa
Os feixes de luz por entre os galhos
Ali no final da João Negrão
Corri de volta para aqui
Como se corre a qualquer lugar
Ao grito forte do senão

1º Sarau Capivara – 13.11.2012

Estava eu lá, enterrada no canto de um sofá, caderno de textos na bolsa, enquanto os demais participantes preparavam o que recitar. Começando com Leminski – poeta homenageado da noite – e passando para o “modo livre”, com trabalhos próprios ou de outros autores, eu me entreguei ao silêncio atento. Vi vários Paulos, alguns mais românticos, outros autobiográficos, ou ainda os que buscavam inspiração – ou a razão para ela. E eu lá, com atenção delicada, como aquela menina loira que ficou levemente vermelha depois de misturar Deus e trepadas num mesmo poema.

E o meu caderno de textos continuou na bolsa. Logo eu que me vi na descrição do sarau, aquela pessoa cansada de apenas postar, postar e esperar a repercussão dos textos online, soltos nesse mundão enorme chamado internet e que ninguém parece ver.

Observando. Meu silêncio é uma forma de concentração. O não dizer é simples encontro, é um não sentir necessidade de palavras por certo tempo. Quis mesmo deixar as palavras para depois, reu…

Constatação

Na linha reta não havia mais subliminaridades, era o puro e simples encontro. Percebeu que estava andando em direção e não desviou o caminho. Era um rapaz aparentemente pouco disciplinado, mas com algumas conquistas na vida, como a de ser o melhor funcionário do mês três vezes consecutivas. Vejamos, calculou sem pressa, não estou apaixonada por ele, mas sou capaz de refazê-lo mentalmente com perfeição. Tem a sobrancelha esquerda falhada quase no final, suas bochechas redondas ficam muito vermelhas quando está ao sol, mesmo não tendo a pele tão clara assim. Suas mãos são um pouco maiores que as minhas, só que muito mais ásperas, tanto que até me assustei quando ele encostou no meu ombro pela primeira vez. As mãos dele sempre me dão um arrepio estranho, como se mesmo o carinho mais não fosse por inteiro.

Enquanto falava, observava os olhos semicerrados do cachorro que lhe lambia a mão com satisfação plena em retribuição aos carinhos que recebia na barriga.

O que eu mais gosto nele? Vo…

Casulo Sonho

Viver no sonho é apertado Por mais quentinho que seja Seguro é sonhar no escuro De quietinho, sussurrando Caia do céu, oh! meu desejo E sufocar as asas querendo nascer Encolhidas para dentro das costas Por que asas d’água não se vê? No sonho está tão bom Que é melhor esquecer de realizar Procrastinando e fingindo que não é mais Arquitetando desculpas infalíveis O casulo fica cada vez mais espesso
O sonho é o próprio fingimento
Ao rebentar do casulo há tudo feito Que, em síntese, é nada A explosão que tudo espalha Provoca o passo em meio ao pó Empurra, embala, tonteia Machuca, derruba, enlouquece Olho para o chão e o sonho estourado Me olha, de fora, feliz Por se ver livre de mim

Escorregadio

Na pior das hipóteses
Eu já varri o jardim
E a calçada está liberta
Sei que nessa falta de sombra
Sobra pouco para dizer
Que estive perto de te perder
De te perder de dentro de mim
O sol que entra na sala
Inunda a vizinha e a ânsia
De te saborear pouco a pouco
Em frases fartas que comemos
Hoje no café da manhã
Com aquele chá de cadeira
Um tempo depois, durante a tarde
Mas está bem
Já desmascarei o portão
Para você atravessar
E se ruim e idoso quiser voltar
Aceita a condição
De pisar nas pedras
Sem lhes tirar o sabão

Desde o estacionamento

Quando parei o carro, logo vi a mulher com cara séria falando no celular e um rapaz fardado analisando a maçaneta do carro. Estacionei atrás deles com receio, mas mesmo assim desci, não aconteceria nada de errado com o meu carro naquela rua. Era dia, perto das 18h, horário de verão, dia quente em Curitiba. A mulher estava inconformada “Eu sempre deixei o carro aqui e nunca tinha acontecido nada.” Sempre tem uma primeira vez, pensei de bate pronto, lembrando da vez em que eu estava no lugar dela, desesperada, chorando, agonizante e drama queen – minha especialidade.

Achei o prédio, entrei, falei com o porteiro. “Interfone estragado, quer subir ou ligar?” Sei lá, podia deixar as coisas ali na portaria mesmo, mas decidi subir, mesmo com aquele carro de vidro quebrado – se bem que o ladrão não voltaria tão cedo, eu acho. Décimo primeiro andar, entrei no elevador nem velho nem novo, como suspenso no tempo. No dia em que o ladrão quebrou o vidro do meu carro também havia um homem fardado …