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Desde o estacionamento

Quando parei o carro, logo vi a mulher com cara séria falando no celular e um rapaz fardado analisando a maçaneta do carro. Estacionei atrás deles com receio, mas mesmo assim desci, não aconteceria nada de errado com o meu carro naquela rua. Era dia, perto das 18h, horário de verão, dia quente em Curitiba. A mulher estava inconformada “Eu sempre deixei o carro aqui e nunca tinha acontecido nada.” Sempre tem uma primeira vez, pensei de bate pronto, lembrando da vez em que eu estava no lugar dela, desesperada, chorando, agonizante e drama queen – minha especialidade.

Achei o prédio, entrei, falei com o porteiro. “Interfone estragado, quer subir ou ligar?” Sei lá, podia deixar as coisas ali na portaria mesmo, mas decidi subir, mesmo com aquele carro de vidro quebrado – se bem que o ladrão não voltaria tão cedo, eu acho. Décimo primeiro andar, entrei no elevador nem velho nem novo, como suspenso no tempo. No dia em que o ladrão quebrou o vidro do meu carro também havia um homem fardado por perto. Aliás, eram dois, um camburão e o ladrão lá dentro. Lembro dos olhos dele, um pequeno ser que me via chorar feito criança porque ele havia tentado me roubar. Com certeza ele deve me achar uma completa mané – e com razão.

O elevador parou no nono andar por algum tempo e continuei subindo. Parou tempo suficiente para pensar que a porta iria se abrir e eu veria alguém do prédio desconhecido. Continuou e eu cheguei. Os prédios sempre me confundem, onde será a porta que procuro? Com aqueles corredores todos iguais, será que ninguém se perde pelos andares? Olhei de um lado e de outro, previ a lógica básica da distribuição daqueles números e encontrei o número que procurava.

Apertei a campainha cigarra, daquelas que incomodam muita gente. Tenho é medo de campainhas, quando trabalhava em uma escola todos davam risada da minha cara porque eu berrava quando alguém apertava a campainha – e normalmente era o entregador de água quem a apertava. A luz de presença se apagou sozinha, talvez eu tenha ficado muito quieta enquanto olhava o final do corredor que era igual ao outro extremo. Veio música de dentro da porta, alguém estava cantando.

Quando a porta se abriu eu logo vi que do outro lado o mundo era normal. Que além do corredor frio havia um espaço de alguém que diz “uma casa bagunçada” para se desculpar da normalidade. Estranho é pensar que existem milhares de casinhas como aquela, todas empilhadas num mesmo espaço. Estranho é eu ter medo de fachadas.

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