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Doação de Cachorro Objeto por Gente Abjeta


Ter uma convivência de bairro, andar pelas lojas e panificadoras da região e se concentrar em apenas uma área tem lá suas vantagens. Sempre tem aquele espaço dos cartazes, oferta de serviços, cães perdidos, cães achados e cães para doação. E foi numa dessas que vi a foto de uma cachorrinha bem simpática da qual a dona queria se livrar. “E a mulher do cachorrinho?” “Telefona pra ela”. Como tenho certa preguiça de fazer contato e ser simpática, o contato foi feito pela minha mãe.

“O cão é terrível, incontrolável, bagunceiro, arteiro, come terra, come os brinquedos da minha filha, não dá pra deixar ela dentro de casa sozinha, é um terror” Ana não parava de falar ao telefone, e minha mãe lá, só ouvindo, parecia até que não queria que alguém pegasse a cachorra. Mas a Ana veio, antes do meio-dia, com o cachorro num braço e a filha pela mão, no outro, criança com cara de choro, manhosa enjoadinha, e a mulher não parava de falar sobre os problemas que tinha, renite, conjuntivite, a pastora alemã branquinha branquinha que ela ia mandar tosar na máquina zero, estava sem empregada para limpar a sujeira. Queria mesmo é doar a pastora, mas era velha, ninguém ia querer.

Belinha entrou em casa, foi recebida pelas minhas outras cachorras sem muito alarde, sem brigas, boas vindas cheirando rabo, tentou brincar, latiu, pediu colo, uma cachorrinha tão normal que assustava, o que de tão terrível será que ela tinha? Sem explicação aparente, ficamos, eu e minha mãe, de quarentena com os três cães nos pés, no colo, na cabeça, briguinhas bobas duas vezes só, no mais foi tudo tranquilo. Passeamos, brincamos, dormimos, bem mais em paz do que o esperado.

No início da manhã o telefone tocou. Era Ana. “Quero o cachorro de volta. Minha filha ficou chorando a noite inteira, com febre, não achei que isso fosse acontecer. Mas só por uns dias, depois eu trago de volta, diga pra minha menina que fugiu”. Belinha foi embora tão rápido quanto veio, não abanou o rabo quando viu sua dona de 24h antes.

Mais um dia e uma nova notícia da Belinha, agora por mensagem de celular. “Acho que vou ficar com ela, estou com medo da saúde da minha filha. Desculpe”. Ana, uma matraca ambulante na hora de colocar defeitos, não sabe pedir desculpas por telefone ou pessoalmente. Ou pior – e que me revolta mais, não consigo evitar – desconhece a própria filha a ponto de pensar que a menina não ia sentir falta da Belinha.

A menina e os cachorros da casa deviam unir forças para se livrar dessa mulher aí, ela que é o problema da família.

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