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Mostrando postagens de Março, 2013

O sonho acabou

Alguns podem pensar que é imaturidade, outros que é pura falta do que fazer, talvez uma ingenuidade forçada de alguém que nunca passou necessidade na vida, ou ainda mera preguiça de acordar todos os dias cedinho junto com as galinhas (alguém vê galinhas na cidade?), pegar o trânsito maldito de todas as manhãs, ouvir as notícias de sempre, promessas de governo, última festinha falida do BBB, quem o Neymar anda pegando, o quanto a gasolina vai subir e o último mês do IPI baixo chegando, uma bela chance para ter um carro novo, mudar de vida, estacionar ou descer do ônibus, ir para o trabalho, ficar lá sentado ouvindo um monte de gente falando com você sabe-se lá o que, e você torcendo para que todos fiquem longe enquanto você mata um tempo no Facebook para ver o seu feed de notícias melhor ainda, tanta gente feliz mostrando o quanto é feliz, o que comeu ontem, que filme viu, qual a última revolta compartilhada, a última petição assinada, os cães que precisam de abrigo, encontre um lar p…

Antes de dormir

Na calma centrípeta das horas
Ouço um fato interessante
No vento forte que me empurra
Um passo adiante
A tontura de pioras
Corpo mole em sofreguidão
De doente acamado
Com a cabeça no chão
Um sono quase vitória
Conduz a madrugada
De calo quase frio
E sinusite atacada
Fecha os olhos e, aos poucos
O corpo mole se entrega
Tudo relaxa, devagar
Mas a ideia se nega

TPM

Letra e composição: Mylle Silva Vestido pendurado
Sapato encerado
Tudo prontinho aqui
A festa logo mais
Estava tudo em paz
Até que então eu percebi
Que não queria
Vestir aquilo ali Corri pra loja de acessórios lá da esquina
Que eu sei que vende uns importados lá da China
A vendedora bem ligeira percebeu
Meu desespero e já me ofereceu
Um colarzão de R$1,99
E uma pulseira de pingente escrito love
Mas acabei comprando só um ponto de luz
E já ia fazendo o sinal da cruz
Quando numa vitrine eu vi Aquele sapato
Tão lindo, tão barato
Tão meigo, tão pra mim
Vi a moça de bobeira
E já com a mão na carteira
Pedi pra experimentar um igualzim
Eu sentada na poltrona
Veio a moça e disse dona
Esse modelo está no fim
Eu só tenho o 36
Não é seu número, mas talvez
Te sirva mesmo assim Foi então que veio uma outra mulherzinha
E me fez colocar o sapato com uma espuminha
Disse que logo eu ia sentir a diferença
"Vai lassear bem antes do que você pensa"
Mas eu não me convenci Eu já tinha um vestido
Nem curto nem comprido
Eu podia…

Lendo na sexta marcha

Um louco, vidrado. Andava rápido, ansioso, livro aberto nas mãos. Desviava as pessoas e atravessava a rua sem tirar os olhos do papel, será que estava mesmo lendo? Camiseta branca, encardida, calça e blusa pretas, usava boné. Passaria facilmente por drogado, maluco, ladrão de galinhas, inofensivo. Mas, e aquele livro, o que tinha naquele livro? Capa preta, no título a palavra MORTO em vermelho. E ele vidrado, engolia as palavras enquanto andava gingando pela República Argentina, as pessoas na velocidade normal, aquele trânsito lento de canaletas em Curitiba e o cara já na sexta marcha, se abastecendo com cada palavra, nada o faria fechar o livro.
Andou dias e noites assim. O livro não era longo, mas ele lia devagar, gostava de atrasar o final. Mas, por uma infelicidade dessas, não foi capaz de ler a última frase: uma fome imensa o tomou e ele se alimentou de papel.