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Lendo na sexta marcha


Um louco, vidrado. Andava rápido, ansioso, livro aberto nas mãos. Desviava as pessoas e atravessava a rua sem tirar os olhos do papel, será que estava mesmo lendo? Camiseta branca, encardida, calça e blusa pretas, usava boné. Passaria facilmente por drogado, maluco, ladrão de galinhas, inofensivo. Mas, e aquele livro, o que tinha naquele livro? Capa preta, no título a palavra MORTO em vermelho. E ele vidrado, engolia as palavras enquanto andava gingando pela República Argentina, as pessoas na velocidade normal, aquele trânsito lento de canaletas em Curitiba e o cara já na sexta marcha, se abastecendo com cada palavra, nada o faria fechar o livro.

Andou dias e noites assim. O livro não era longo, mas ele lia devagar, gostava de atrasar o final. Mas, por uma infelicidade dessas, não foi capaz de ler a última frase: uma fome imensa o tomou e ele se alimentou de papel.

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