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Para ser corrompido


Parecia só uma bala para guardar um segredo, uma bala daquelas bem gostosas de morango com recheio mole dentro, meio azedinhas, logo veio um pacote delas e você lá, aceitando todas, se deliciando lentamente, elas estão derretendo na sua boca, machucando a sua língua e, junto com sangue, você descobre que o pacote de bala foi roubado de alguém que precisava mais daquelas balas que você, mas nem ligue, são apenas balas, todos roubam balas, homens de bem, homens honestos, homens trabalhadores, todos, em algum momento, já roubaram balas, sou apenas mais aproveitando um doce roubado, tão bom quanto os doces de infância, e para tê-lo precisei apenas guardar um segredo mixuruca, um detalhe bobo que ninguém precisa saber mesmo de tão bobo que é, uma informação tão corriqueira, acontece todos os dias diante dos nossos olhos e fingimos não ver, reclamamos das coisas como estão e continuamos a repetir o erro, a abrir mão dos nossos direitos, nos corrompemos aos pouquinhos, como um balão que vai inflando e, quando vê, já está lá no céu, ninguém segura mais, para esconder um erro é preciso cometer outro maior ainda e outro maior ainda que esse, mas tudo começou só com um pacote de balas, daquelas bem vermelhas e gostosas, quem diria que terminaria assim, descontrolado, sem pé nem cabeça, sem paz de espírito, com todas as cartas marcadas, cuidado para não entrar em conflito, é preciso pensar no todo, tentar ajudar o próximo, ter senso comunitário, por isso aceitei as balas em troca da informação, para não trair o movimento, para atender as súplicas de um adulto com cérebro de pamonha, para continuar andando, bola pra frente Brasil, a corda vai cedendo aos poucos do lado mais fraco que fica sem saída, em nome de uma memória, de um ideal que não existe na cabeça de todos, se cala com a boca cheia de formigas.

Comentários

Marilia Kubota disse…
Gostei disso. É uma boa ideia. Eu trabalharia mais.