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Anoitecendo

O entardecer cinza alaranjado entra pela janela do quarto. Mas como pode um cinza ser alaranjado? Imagino que esse seja um grito do sol contra as nuvens que o escondem, que insistem em tampar os tons de amarelo, alaranjado e azul que se misturam tão bem nesse final de inverno, que de tanto frio e depois de tanto calor deixou as árvores loucas e fez com que as azaleias no meu jardim florescessem bem antes do tempo. Meses antes, elas devem estar tão ansiosas quanto eu pela chegada da primavera, só que, ao mesmo tempo, os ares de outono atacam também as árvores que perdem folhas aos montes e enfeitam as calçadas – uns chamam de sujeira, mas para mim é enfeite.

Esses dias ventava muito mas eu não estava aqui, caminhava em um gramado há 150 km de casa sem saber muito bem para onde ia, como quem segue o instinto animal, a necessidade primeira de andar. Fazia sol e tudo estava colorido sob a luz dura do início da tarde, penso que o tempo congelou enquanto eu caminhava, éramos eu e as folhas se debatendo ao vento. Como pode existir o silêncio? Queria chegar ao fundo do silêncio, incapaz de ouvir minha própria respiração.


Deparei-me com uma ruína, uma árvore caída, alguém a deve ter cortado. Algo me atrai na ação do tempo, no seco, no velho, como se aquela fosse a real forma de tudo que existe, natural ou não. É lindo ver o novo, limpo, polido, inteiro, brilhante, jovem, fresco, macio e elástico, mas sabemos que tudo se desgasta, cedo ou tarde e é essa a imagem que teremos na memória. Quando o alaranjado do céu se for e a noite cair só nos restará o desgaste.

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