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Mostrando postagens de 2014

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O ingrato e o rancoroso
Quando se dão as mãos
Fecham olhos, ouvidos
Trancafiam o coração
Mal enxergam
Um palmo a frente
Muito menos, entremente
Sentem gratidão
Apegam-se ao óbvio
Ao que fácil parece
Mas o esforço do outro
No tempo perece
"Vejam só, que lindo foi
Os setes mares viajar
Mas eu não pude, eu não quis
Fui obrigado a ficar"
No entanto, quem foi,
Abriu mão de prioridades
Aniversários, compromissos
Que aos outros não passam
De meras formalidades
Afinal, o que importa é o sorriso
Ninguém parece cansado
Porque ver apenas o óbvio
Já é caso encerrado

Palha lavra

Amor, fagulha leve
Em meu peito coração de palha
Faz o estrago que merece
E perece às vezes de se consumir
Como um vulcão de desejo
Palha lavra lava beijo
Se eu pudesse escolher, e escolheria
Viver amor e morte tudo num só dia
Para renascer todas as manhãs
Junto da fagulha ventania

Cercamentos

Chegará um dia em que todos os dias
Serão dias perdidos
Caídos no esquecimento do ar
E, de tristeza, as palavras voarão
Como nós nas arestas do destino
Desse mundo quadrado
Mudo e mudado
Que esquecemos de esquecer
E enquanto a infantaria das obrigações
Manda embora nossa infância
Inflamos o peito, temerosos pelo dia
Em que todos os dias serão dizimados
Por tudo que nos reprime
Nos deprime
E nos cerca

Porta de Ferro

Naquela tarde nada aconteceu além da imensa vontade de fazer mais coisas do que já faziam. “Precisamos trabalhar mais”, ele dizia, mas não como se fosse algo ruim, era apenas um fato. Forçados a se desprender de suas amarras e medos, será que daremos conta, será que sobreviveremos, perceberam o óbvio ao esticar o braço para alcançar a porta de ferro: por mais que se tente puxar, será impossível enquanto alguém estiver preso a sua cintura. Assim, como se os dias repletos de sonhos fossem uma engrenagem enferrujada que só se movimenta quando a porta é puxada, e puxá-la sem interferências já é difícil, imagine quando há alguém atrapalhando, aí é muito pior!

Bem, por se tratar apenas de uma porta, ela foi rapidamente baixada e trancada como manda o protocolo, puxada com força até o chão, porque é fácil executar as tarefas banais do dia a dia, os hojes amontoando-se um após o outro com todas as nossas tarefas banais, nada que preste nesse meio tempo, nada pelo que se orgulhar ao olhar pa…

Estalos

Apago-me nas várzeas e pergunto Vazio, recuo Opaco silêncio este que faz Quando os olhos se fecham As bocas se beijam Estampidos, prazeres viscerais Esquentam tardes luminosas Noites fogosas Encontros espaçados, expectativa O tempo corre em estalos Enquanto, de olhos fechados, Espero que sua boca Encontre a minha

(des)delírio

Andava com a leviana vontade de estremecer os topos das árvores, onde havia as folhas mais verdes e viçosas, mas antes era preciso descobrir o caminho das pedras por entre galhos e bugalhos que surgem sem aviso prévio dentro de nossas mentes, o arrepio quente na espinha que nos acomete quando estamos prestes a dar o próximo passo, o decisivo andar de cima de cabeça para baixo, o foco que rebusca e ofusca as narinas, e eu te calo com um sopro de vida, é cedo ainda, precisamos descansar o maquinário para sermos menos irritantes amanhã, já que amanhã será o cerão de ideias como todos os dias, refletimos conselhos, conflitos e medos em um movimento cítrico que queima estômagos, já pensou em se aposentar dessa vida e começar uma nova, como quem pendura um casaco e diz “agora não preciso mais de você” para então renascer com novos desejos, outros olhos para o mundo, olhos menos cegos de sonhos que libertam o coração e esvaiam os bolsos.

Zumbidos

Isso da gente Não controlar o que sente De se perder Nas entranhas do destino De deitar e rolar Nas atitudes impensadas De mergulhar cada vez mais Num poço de erros seguidos Ainda há de nos enlouquecer Nas noites solitárias De corpos vazios E zumbido de pernilongo Ao pé do ouvido

pãezinhos

Final de tarde, horário de verão. Ao entrar na panificadora, já vê uma fila enorme, pelo menos seis pessoas na sua frente. Um movimento inesperado para o início do ano mas, como um bom curitibano, entra na fila sem pestanejar. O que estariam esperando todas aquelas pessoas ali? “Oi, Baiano, tudo bem? Quantos pães vai querer?” “Tudo sim, você querer três pães, por favor.” “E a senhora, vai querer quantos?” “Seis, mas eu prefiro os mais queimadinhos.” Nada perguntam para ele. Um silêncio estranho se fez em meio a toda aquela gente e a resposta chegou: estavam todos esperando o pão fresquinho.
Ah, o primeiro pão fresquinho do ano a gente não esquece. Recém-saído do forno, macio, cheiroso, até a manteiga mais durona se derreteria por ele de tão gostoso que é. Ninguém naquela fila queria nada além dos pães novinhos, as mãos suando durante a espera, a expectativa nas alturas e, de repente, o som dos bloquinhos de massa caindo na caixa de madeira anuncia a sua chegada.
Havia gente de todo o…