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Sobre retirar-se

Certa vez, acreditei que estava construindo algo meu, profundamente meu, capaz de me fazer sentir na pele os desafios de existir. Nessa época eu era ingênua e acreditava em um mundo rodeado por pessoas boas e abertas como as que eu tinha conhecido e que me serviam de exemplo. Acreditei ainda que apenas a beleza do momento e a paixão seriam suficientes para que o trabalho acontecesse e fosse reconhecido.

Hoje admito: me enganei.

Quando aterrissei no sonho, ele não era meu, já estava lá, acontecendo. Por mais que eu tenha tentado, nunca deixaram que ele fosse meu, porque a porta estava trancada há muito tempo. Nos breves momentos em que acreditei estar sonhando junto, fui colocada no meu lugar: fora do sonho.

Veja bem, eu queria me enganar.

Queria um engano profundo e interminável. Uma venda que arrancasse meus olhos para que eu nunca pudesse perder a inocência. O sonho nunca foi meu e eu nada pude fazer para que fosse. Sou apenas uma expectadora que se iludiu desde o primeiro passo. Uma página vazia que só faz volume.

Um corpo perdido, em movimento, onde sempre esteve, em lugar algum.

Bom seria não saber, esquecer que um dia aquele sonho existiu. Mas há de se reconhecer que certos sonhos não nos cabem simplesmente porque não foram por nós sonhados. Algumas pessoas, como eu, só podem sonhar sozinhas.

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